Mostrando postagens com marcador Escrever só por escrever. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Escrever só por escrever. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 5 de abril de 2023

O lugar onde as ondas morrem

Tragédia. A tragédia tem seu apelo, não podemos negar. Como uma proteína, ela se associa a alguma parte primitiva no homem e secreta um hormônio sedutor, quase hipnótico. O sinal é transduzido e, em pouco tempo, todas as células, adjacentes ou distantes, movem-se em direção ao sofrimento.  

Cansamos muito rapidamente dos relatos de felicidade, até nos ressentimos deles em certa medida, mas para a tragédia sempre há espaço, ouvido e atenção. 


Somos assim há muitos anos. Das feirinhas em dias de execução nas praças públicas aos jornais que jorram sangue na hora do jantar em família. Os "homens maus realmente fazem o que os homens bons sonham." 

Algumas pessoas se perguntam o motivo de nosso comportamento irracional, criam várias teorias estapafúrdias e são capazes, inclusive, de se inocentarem dessa culpa, dizendo em alto e bom som que não compactuam desse mal endemico. 

Alheias, é claro, a própria maldade, sufocam nas profundezas do subconsciente um grande dragão. 
Na verdade, a literatura antiga, a neurociência e a psicanálise já tem metade, senão todo esse quebra-cabeças montado. Todos temos traços de psicopatia, o que nos impede de sair por aí cortando as cabeças de nossas mães, é a empatia  - e às vezes nem é empatia pela mãe, mas sim por nós mesmos. Todos somos compostos de átomos, moléculas, tecidos, organismos, sistemas e aquela maldade instrínseca ao IDE que o alterego arrancou à base da chinelada e do castigo de joelho no milho. 

Quantas pessoas você matou ao longo da sua vida? Não digo com as suas próprias mãos, mas em sua cabeça. Quantas você chicoteou, quantas você quis ver tropeçando e caindo? Quantas vezes, quando os seus pais o colocavam de castigo, você pensava em vingança? Amamos a tragédia porque somos nós também tragédia.

Não vejo defeito nisso. Eu concordo com aquela máxima Petersoneana: só quem é um monstro e controla esses aspectos voluntariamente pode ser realmente bom. Animais indefesos são perigosos, homens indefesos são homicidas. 

E como se dão as tragédias nesse mundo? Quando começaram e por onde adentraram na aparente ordem na qual nos organizamos, primeiro como células, depois como comunidades?

Alguns dirão que tudo começou em um jardim num dia ensolarado, quando a rebelião deu à luz a lógica e a morte.  Outros dirão que foi em uma grande explosão que trouxe a ordem temporária as coisas ao preço de embutir em seu DNA a sua degradação inevitável.

Porque morremos há tragédia e não existe grande tragédia sem ao menos uma morte. 

É um discurso duro, eu sei, ou apenas dramático, mas me pareceu a introdução correta ao meu infortúnio pessoal. Enquanto muitos dirão que a tragédia é uma evento aleatório e outros ainda dirão que é o resultado dos nossos maus atos, eu digo que a tragédia é resultado da minha felicidade. É isso mesmo. Se eu fico feliz, alguma tragédia acontece. 

Primeiro pensei haver mera correlação entre essas variáveis, depois confirmei a causalidade dos eventos. Se eu sorrisse tão logo tropeçava, se eu tivesse um bom dia hoje, no seguinte amanheceria doente. 
A todas as entradas felizes do meu diário seguem-se pequenos incidentes, medianas misérias e grandes tristezas. 

Não demorou muito para que eu começasse a ser consumido por um terrível medo da felicidade. Após cada sorriso eu sempre esperava, no mínimo, ser cagado por um pombo bem no meio do olho ou ainda ser atingido por um raio. 

Vociferei incontáveis vezes contra o céu e a estatística por minha pífia existência. Me senti o mais miserável entre os homens; quão desafortunado esse amontoado de átomos com infinitas possibilidades se tornou. Feynman, você estava errado! 


O pavor da tragédia iminente me tornou um "pobre melancólico que acha que a felicidade é muito barulhenta e cheia de gente". Fugi dos sorrisos, dos amores e dos conflitos que poderiam resolver problemas e trazer serenidade a vida como o diabo foge dos gritos do Silas Malafaia.  Nenhum segundo de prazer compensa a dor aleatória que, inevitavelmente, o segue. 

 
Isolei-me, por fim, num apartamento confortável no centro da cidade. Daqui ouço a gargalhada dos ébrios, a volúpia das vozes femininas, o gemido das cuícas e os tilintar das taças de cerveja. É aqui onde ondas sonoras vêm morrer. Também é aqui que choro incontáveis lágrimas amargas após horas assistindo vídeos de cantores ruins em programas de calouros. É daqui que não posso sair para que meu futuro não seja como o meu passado. É aqui que todos os dias eu morro um pouco. É aqui que existe paz.

Quarta-feira

 Sou dramática e desequilibrada. É isso. Tenho que aceitar a minha dramaticidade e desequilíbrio. 

E tem mais, sou também emocionada. Choro quando os amantes me deixam. Choro quando me esquecem. Choro quando aparecem engalfinhados em outros amores.

Abomino o frio e o taciturno e as mensagens antiinflamatórias - de 8 em 8 horas. 

Não ousaria dizê-lo em voz alta, mas quero dengo, chamego e cafuné. Não confesso porque para essa geração não existe crime maior do que o apego. Tenho medo de terminar de trás de grades, vestindo um tenebroso macacão laranja, condenada a dançar o thriller para o YouTube. 

Gosto também de uma boa briga - porque sou desequilibrada. E exijo dos meus amores que briguem de volta. Que pelejem comigo esse bom combate. Só para viver as delícias das pazes mais tarde. Só para viver em paz pós conflito. 

Como De Gaulle, eleito após a guerra dos paralelepípedos. 

Sou dramática e desequilibrada e, por muito tempo, tive vergonha de sê-lo. Era como quem tem 3 mamilos e mantém o extra escondido com medo de ser vendido ao circo para o riso do público. 

Mas que público é esse, eu pergunto? Que público é esse cujo julgamento pode sepultar um ser vivo?

O público do ansiolítico, dos vícios, da solidão, dos ataques de pânico, do amor incondicional dos cachorros, da falta de habilidades sociais, do ódio ao gênero oposto, do golpe no amor, do golpe sem amor, do vazio existencial, da falta de identidade, da dor sem palavras. 

E diante da inadequação do próprio público, como Nelson Rodrigues abraçando a velhice ante a vergonha da nudez sem amor, dispo-me de vergonha, corro e agarro pelos ombros os sentimentos que carrego, abraço apertado, peço desculpas por tê-los rejeitado e os levo ao cinema.


Quarta feira o ingresso é mais barato.


sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A mulher ideal



Cena:

Um homem e uma mulher estão sentados em uma mesa de um restaurante fino. Esse é o primeiro encontro deles. O jantar foi um sucesso. O homem segura a mão da mulher por sobre a mesa e o seguinte diálogo se segue:

- Você quer esticar essa noite na minha casa com um bom vinho?

Segue-se o silêncio. A sociedade fica apreensiva.

- Bom, até me sinto tentada a aceitar essa oferta sensacional, mas terei de declinar (A sociedade respira aliviada). A verdade é que se formos para a sua casa em algum momento você tentará fazer sexo comigo (A sociedade concorda. Uma senhora diz em tom condescendente "Homem, né. Muita testosterona.").
Apesar de ter ouvido por toda a vida que uma dama não deve dar no primeiro encontro, sendo de carne e osso assim como você - Pasme! - eu poderia ceder a tentação. Você já leu bulas e embalagens de métodos contraceptivos? Nenhum é 100% eficaz. Isso mesmo! Todos podem falhar. Então existiria uma chance, ainda que diminuta, deu sair grávida dessa noite.
Bom, tão logo eu descobrisse te ligaria. Você diria que não é problema seu, que dei porque quis ("Não pode ver pinto! - Vocifera a sociedade!). E me perguntaria como pode ter certeza de ter sido o único já que obviamente tenho o hábito de fazer sexo na primeira noite com qualquer um. ("Libertina!!! - Alguém grita do meio da sociedade).
Iria mandar eu dar meus pulos o que me deixaria com apenas três nada agradáveis opções:
Poderia manter a criança sozinha (A sociedade cochicha e a olha de soslaio: "Mãe solteira... E tão nova".), poderia dar o bebê para adoção porque ter filhos não é realmente o sonho da minha vida. E nesse caso eu teria de lidar com ela - Ela aponta para a sociedade que segue perplexa ("Uma mãe abandonando um filho. Onde já se viu? Eu criei 12!" - Protesta a sociedade - "Será que ela sabe o que acontece nesses abrigos? A violência, o abuso, a solidão!), ou eu poderia decidir pelo aborto (Um burburinho crescente percorre a sociedade. Do fundo vem um grito de "Vadia!", "Por que não deu para adoção?"). Nesse caso eu seria julgada por eles, por minha família e por meus amigos. Até você, que não faria qualquer questão dessa criança, me olharia de rabo de olho. Diria aos nossos conhecidos que nunca pensou que eu fosse capaz de uma brutalidade dessas e que estava inclusive disposto a pagar a pensão (A sociedade meneia a cabeça e diz "De fato um bom homem!").
Se mesmo assim eu persistisse com essa ideia teria que procurar uma clínica ilegal ou um farmacêutico sem muitos escrúpulos e seguir esses poucos tutoriais da Internet sem qualquer segurança, sem qualquer assistência.
Você sabe, esse tipo de procedimento feito de forma precária pode realmente ter consequências terríveis. Tanto físicas quanto psicológicas. Então, estatisticamente falando, haveria grandes chances de dar errado, eu iria parar num hospital, diria ao médico que se tratava de uma tentativa de aborto forçada, ele me trataria mal e todos os enfermeiros com ele (Realmente um monstro! Como ela pôde? O próprio filho! Um bebê indefeso!)
Depois de algum tratamento severo, muito sofrimento e alguma sorte eu sobreviveria a todo esse processo de aborto/cura. Após processada e quem sabe até presa e molestada por alguma presa, voltaria ao convívio da sociedade, desiludida e amargurada.
Passaria a ver todos os homens como abandonadores em potencial. Tornaria-me agressiva. Começaria a ver um padrão patriarcal em todos os lugares e assuntos. Em forma de rebeldia, como um grito ineficaz de alforria pararia de fazer o que os outros esperam de mim. Nada de maquiagem, nada de depilação ("Feminista suja!". "Isso é falta de rola!" - A sociedade ri.)
Ao contrário - Ela diz enquanto toma um gole de sua bebida - O problema aqui é o excesso.
Como você pode ver é uma tragédia anunciada.
Fico grata pelo jantar. Estava tudo delicioso. - Ela levanta,pega a bolsa e o casaco do encosto da cadeira. - Não estarei esperando você ligar, é claro. Li todos os manuais de como entender os homens e sei que está no script essa sumida pós encontro. - Ela se vira e sai do restaurante.

(A sociedade se encara com cara de quem não entendeu nada: "Que conservadora! Hoje em dia as mulheres são livres para fazer o que bem entendem. Devia ter dado logo!", "Antiquada!"... - De repente um grito do meio da sociedade - "Pessoal, olha ali! - Todos os olhos se voltam numa mesma direção! - Aquele cara ali acabou de dizer ser cristão! - "Ignorante!", "Preconceituoso!!!, "Vamos lá ver de perto!", "Não se preocupem, eu sou estudioso, vou humilhá-lo usando de ciência pura e simples!", "Vamos!!!)


Encerra a cena.

sábado, 23 de janeiro de 2016

O cliente

O cliente A entra na loja de supetão. Está esbaforido e a pele brilha de tanto suor. Marcas escuras se formam na camisa cinza sob as axilas. Ele cheira a perfume forte e cigarro. Traz nas mãos de unhas roídas e sujas duas caixas  abertas. O vendedor dá uma olhadinha para o monitor e confere a hora. Sim, quase hora do almoço, ele sorri e: 

Horário 11: 10 

Cliente - Boa tarde! Será que você pode me ajudar? - A voz brada como um trovão, super alta. - Eu comprei esse presente, tá vendo aqui, essa é a nota, vou ler pra você, me acompanha. Loja X, Rua Y, Número 1987, Rio de Janeiro, Bairro Tal. - Ele olha para o vendedor - É essa a loja? Sim? - Então, eu comprei na Loja X, Rua Y, Número 1987, Rio de Janeiro, Bairro Tal, um presente, certo? - E continua lendo - Vou prosseguir, espera um pouquinho. O nome do comprador , Sicrano da Silva, esse sou eu, quer ver a identidade? Não?  Melhor mostrar a identidade. Para ficar tudo certo, né? - Ele revira uma bolsa velha cheia de papel em busca da identidade. - Olha aqui. Vou ler para você.  Válida-em-todo-território-nacional. Quer dizer que é verdadeira, entende? Válida-em-todo-território-nacional, Registro Geral: 11.092.001-2, Data de expedição: 13/07/1982. Nome: Sicrano da Silva - Que sou eu - Filiação: Dona Fulana e Seu coisa. Esses são meus pais. Naturalidade: Rio de Janeiro. Foi onde eu nasci. Data de nascimento:  24/04/1964.  O cpf não tem, mas eu tenho o cartão se você precisar. Não precisa? Tudo bem. Então anota aí, eu, Sicrano da Silva, comprei na Loja X, Rua Y, Número 1987, Rio de Janeiro, Bairro Tal, que é essa loja aqui, não é isso? Comprei nessa loja um presente. Que eu trouxe aqui. Olha. - Ele entrega a caixa na mão do vendedor. - Eu comprei esse presente pela internet, mas nessa loja, entende? Tá aqui na nota. Vou ler pra você. Loja X, Rua Y, Número 1987, Rio de Janeiro, Bairro Tal. Destinatário: Sicrano da Silva, eu,  meu Endereço: Rua da Tragédia, Número 2424, CPF - Aqui tá o CPF, informação importante - Espera, você não está me ouvindo, vou recomeçar - Eu, Sicrano da Silva, comprei aqui, nessa loja, Loja X, um presente pela Internet que eu te mostrei, cadê o presente? Ai, meu Deus, cadê o presente?? - Ele vasculha a bolsa - Me ajuda, pelo amor de Deus, eu estou ficando louco! - Aqui o presente! Eu comprei esse presente na Loja X, Rua Y, Número 1987, Rio de Janeiro, Bairro Tal, certo? Você está entendendo?
Mas essa semana, na quarta feira, chegou essa outra caixa e dentro o mesmo presente. Agora, se você olhar aqui na minha nota vai ver que comprei um único presente desses. Olha aqui. Cadê? - Ele começa a ler baixinho as informações da nota em busca do que quer mostrar ao vendedor - Aqui! - Ele aponta - Quantidade, ou seja, o número de presentes requisitados, é 1. Numeral um. Tá vendo?
Mas aí, na quarta-feira, eu recebi outra caixa igual com o mesmo presente. Um presente que eu comprei nessa loja X, rua Y, mas pela internet, com essa nota aqui. Como devo proceder?
Eu podia ter resolvido pela Internet? Mas pela Internet acho complicado. Vocês poderiam não entender a situação ou achar que eu estava mentindo. Ao vivo é mais seguro. Eu posso mostrar a nota. Cadê a nota? - Ele revira uns papéis na bolsa. - Cadê a nota, garoto? Ai, meu Deus! - O vendedor aponta para a nota em cima da mesa. - Ah, aqui... Ele passa o dedo de cima para baixo em todas as informações da nota. Olha, um único presente e eu recebi dois. 
O que eu faço?
Hum... Tá. Espera. - O cliente saca um papel em branco amassado do bolso e pega uma caneta de cima da mesa do vendedor. - Pode falar. Enviar e-mail para o sac da loja. - Ele começa a repetir tudo o que o vendedor diz enquanto anota as informações no papel que tem no colo - E como eu acho esse Sac? Qual é o site da loja? www.lojax.com.br. Depois eu clico em Sac. Então esse Sac está disponível no site da loja? Se eu entrar lá vou ver esse Sac? Aí eu clico no Sac e resolvo meu problema? Então vamos ver. Eu vou entrar no site da loja que é www.lojax.com.br, vou procurar pela palavra SAC, o que significa Sac? Serviço, peraí, você está falando muito rápido, Serviço de Atendimento ao Cliente. Então eu entro no site e clico no Serviço de Atendimento ao Cliente. E depois? Hum? Entro em contato com vocês. Usando o e-mail disponível no SAC. O SAC que eu encontro acessando o site da loja. Okay. No e-mail, espera aí, 2! - Ele coloca um número dois ao lado da segunda linha escrita, para ordenar as informações - 2. Explico meu problema no e-mail. Que eu recebi dois presentes quando comprei apenas um. Que está naquela nota que eu te mostrei. Cadê a nota? Aqui. Nessa nota, que diz que comprei um presente na Loja X, Rua Y, Número 1987, Rio de Janeiro, Bairro Tal. Quantidade 1. E aí está resolvido.
Eu levo o presente aos correios e ele será enviado de volta a vocês. E aí? Acabou o problema! Está tudo resolvido? É isso? É isso. Certo.
Então se eu for ao Correio e levar o presente eles o receberão e enviarão de volta a Loja X? Eu só preciso entrar no site da Loja que é - Ele olha para o papel em busca da informação - que é, www.lojax.com.br, procurar por SAC - Serviço de Atendimento ao Cliente - mandar um e-mail para vocês e entregar o presente para o Correio. Aí está tudo resolvido! Porque vocês já vão ter aprovado o reenvio. O reenvio já vai ter sido aprovado? Então eu posso entrar no site e reenviar.
Qual o seu nome mesmo? - Vou anotar aqui. BEL-TRA-NO. Com um ou dois L? Okay. Então, Beltrano, com um L só, vendedor da Loja X, Rua Y, Número 1987, Rio de Janeiro, Bairro Tal, na qual comprei um único presente e recebi dois, me atendeu e disse que posso resolver meu problema acessando o site - Não me diz! - é... www, ponto, loja X, ponto, br.. Não? Não!!! Br não, ponto, com, ponto, Br, depois clicando em SAC, que significa Serviço de Atendimento ao Cliente, enviando e-mail explicativo sobre meu problema, 3) e entregando a caixa nova aos Correios para que seja reenviada a loja. E está tudo certo!
Você é um anjo!!! - Então quando eu for ao Correio o reenvio já vai ter sido aprovado? Eu só preciso levar a caixa. E o número de serviço inverso... Você não tinha me dito isso!
Então, depois de acessar ao site da Loja que é, www, ponto, Loja X, ponto, com, ponto, Br, eu vou clicar em Serviço de Atendimento ao Cliente, SAC, enviar um e-mail para a Loja X explicando que comprei um presente, esse aqui - Ele pega a caixa aberta - e recebi dois, anoto o número de entrega reversa, vou ao correio, levo o presente, eles enviam de volta para a loja e está tudo resolvido. 
Não pago o segundo presente porque comprei apenas um e avisei vocês, da Loja X que recebi dois, quando comprei um, que é o que diz na nota, essa nota aqui. Certo? Certo.
Muito obrigado, viu. - Ele segura a mão do vendedor e balança com veemência. - Quero pagar seu almoço. Não posso pagar seu almoço? Então eu te dou vinte reais e você compra um doce. Não posso te pagar um doce cacete??? Não precisa? Porque é seu trabalho. Tudo bem. Obrigado de novo.

O cliente então se levanta, enfia as caixas de papelão na bolsa e anda até a saída conferindo suas anotações enquanto as repete baixinho. Já à porta ele olha para trás e faz menção de retornar para fazer mais alguma pergunta. O vendedor desesperado começa a sentir palpitações, tremedeira e boca seca. Nesse minuto, que mais pareceu uma eternidade, ele foi capaz de fazer promessas a todos os santos que conhecia. Se nunca mais visse aquele homem dedicaria toda a sua vida a venda de produtos Jequiti em Jericoacoara. E embora tivesse muita fé, decidiu não tentar o divino e pediu demissão naquela mesma tarde. Nunca mais foi visto, nem mesmo quando convidado a participar do Programa Roda a Roda Jequiti.

Horário: 12:10

sábado, 5 de setembro de 2015

Ode à Privada

em todas as minhas viagens sinto saudade de casa
primeiramente vem minha cama
e logo em seguida
a privada

não existe nada como a privada com quem se mantem intimidade
aquela que você conhece a altura o diâmetro e a profundidade
na qual se pode sentar com confiança
aquela obra arquitetônica que troca o calor ideal com a sua busanfa

tão bem localizada
tão alva e desbacterizada
tão receptiva e motivacional
alguns poderiam dizer até maternal

não pense estar esquecida
ó privada adorada
sem você na minha vida
não teriam belezas as minhas cagadas

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

A Suspeita

Começou como uma leve insinuação.

Seria possível?

Pensou e repensou a situação. Não. As chances eram pequenas, se não minúsculas. Mas a verdade é que existia uma chance. Ainda que remota. E os céus são testemunhas de que para ser castigado, para que seus pecados venham à tona, para que Deus mande fogo consumidor do alto basta apenas uma possibilidade do tamanho dum grão de mostarda.

A primeira semana passou e já sentia os sintomas. Náuseas. O estômago pesado. A pressão oscilante. Falta de apetite. Tentava, entretanto não conseguia pensar noutra coisa. Sentia um peso no corpo, uma opressão gigantesca. Calculava a proporção que aquilo podia tomar. Todas as coisas que perderia. Como as pessoas iriam reagir ao receber a notícia. Os vizinhos, Deus!, os vizinhos, o que eles diriam?
Já não se concentrava no trabalho. Atendia mal as pessoas. Sem paciência. Todas as vezes em que lhe pediam informações, indignava-se. "Quem essa gente pensa que é? Não sabem que os outros têm problemas de verdade para resolver?"

Passava muito tempo no banheiro. Medindo-se. Às vezes levantava a blusa. Procurava por algo diferente. Um vestígio da danação. Chorava e implorava a Deus por compaixão. Começou pedindo que Deus tivesse misericórdia, depois, sentindo-se infame, pediu que Deus apenas usasse da misericórdia que Ele já possuía. Mas a verdade é que a Divindade permanecia em silêncio. Então sentia como se o julgamento viesse de cima. Implacável. Duro. Sentia os olhos do Senhor gelados em suas costas. E Sua respiração em seu pescoço. Sabia-se culpado e nesses raros momentos de lucidez cristã limitava-se a dizer em alto e bom som que "A vontade do Senhor deveria se cumprir" e que seu papel era apenas o de sofrer as consequências de seu pecado.

Em meio a angústia, sem poder se confessar para a família, resolveu procurar um médico. Afinal de contas, qual era a medida de seu conhecimento no campo das ciências? Como poderia diagnosticar-se? Por que acreditar no relato de leigos? Apegava-se a esse mantra e por alguns momentos sentia-se melhor.

Já no consultório, o médico, um senhor de idade, fez-lhe os exames próprios a situação, ouviu seu relato paciente e atenciosamente somente para dizer-lhe que era impossível. Não havia nada ali. Estava vazio. Não havia com o que se preocupar. Mesmo assim, para desencargo de consciência, passara-lhe alguns exames. Despediu-se com um abraço. "Por favor, não se preocupe. Tudo ficará bem."

Saiu dali com os olhos inchados. Na verdade, chorar em frente ao médico foi libertador. Chegou a conclusão que sofrer em silêncio mata mais rápido. Correu ao laboratório imediatamente. Um Sol escaldante fazia-lhe ensopar a roupa. E apesar da cidade estar apinhada de gente, sentia-se na mais perfeita e ampla solidão. Nos lábios uma outra oração. Ou talvez apenas a repetição do "Por favor!"Como se de muito repetir fosse finalmente ser ouvido. As atendentes eram simpáticas. Mas teve vergonha de solicitar o exame. Elas saberiam imediatamente.

O resultado ficaria pronto no mesmo dia. E esse foi o pior dia. Era nisso que pensava a todo momento. "E se der positivo?" A comida não tinha gosto. As pessoas não tinham graça. Não conseguia sorrir. A pele estava amarela. O amargor interno escapava pelos poros. Não raramente os olhos se enchiam de lágrimas em meio as conversações do dia a dia. Fingia uma irritação, um cisto. Corria para o banheiro. Seu mais fiel amigo. Seu grande refúgio.

A definição de seu destino sairia às 17h. Trinta minutos antes entrava laboratório a dentro. Roía as unhas uma por uma. As pernas balançavam como se tivesse parkinson. Chamaram seu nome e agora tinha nas mãos o envelope lacrado. Enquanto brigava com um grampo que prendia o papel dobrado sentia o coração bater na garganta. "É agora!" Abriu a folha e os olhos prescrutaram cada centímetro. Então, no canto esquerdo superior, bem resumido, leu seu nome, sua idade, o método usado no exame e um negativo. Respirou aliviado. Percebeu-se sorrindo. Desceu as escadas jovialmente. Livre enfim! Voltou para casa e nunca esteve tão feliz.

Interessante como é só nos piores momentos que percebemos as dádivas que temos. Enquanto sofria entendeu finalmente que não queria perder nada do que tinha. Suas condições eram as melhores possíveis. Até o que lhe incomodava faria falta. Jurou comporta-se, jurou que não faria mais nada que pudesse colocá-lo novamente naquela posição, refém da Lei. Faria tudo certo agora. E a verdade é que aquele "negativo" abria muitas possibilidades. O mundo era o limite. Tudo seria diferente.

Uma semana, bastou uma semana para que esquecesse a recém adquirida cristandade e voltasse a encher os pensamentos de volúpia. A sombra amarga do castigo jazia longe, não podia mais alcançá-lo. Estava livre e a liberdade quase nunca é usada para o bem nessa Terra. E Deus sabendo de sua predisposição para o mal resolveu relembrá-lo de sua condição vil e carnal.
Estava deitado em sua cama quando notou o estômago alto. Como que oval. Ora, era de uma magreza cadavérica, nunca tinha visto aquilo. Levantou-se, mediu a barriga no espelho, a mãe que passava pelo quarto disse algo como "Eu tinha notado, mas não quis dizer nada para não ser chamada de chata." Teve medo.

Aos poucos a aflição retornava a sua cabeça. Procurou por experiências parecidas na internet. Leu que exames falham. Uma frase fez seu mundo cair "Um exame é apenas um exame, não constitui de nenhuma forma a situação em si, por isso pode sim falhar". Já não podia mais confiar em seu negativo. Era isso, estava liquidado.

De folga aquele dia, sentou-se ao lado da mãe no sofá para assistir os matinais. Distraído em suas próprias conjecturas, foi chamado a realidade pela voz distante da mulher: "Agora vê se pode. Perder outro filho! Essa manhã sonhei que andava a teu lado e de repente sumias. Estava sozinha"
Verdade seja dita, há muito não frequentava igreja e se dizia sem religião, mesmo que crente. Sua educação tinha sido estritamente cristã e se hoje, crescido, deixava de fazer coisas que o Evangelho pregava como pecados mortais, não o fazia por fé, mas sim por medo das consequências de seus atos. Era medroso por natureza. E seu maior pavor era perder a condição confortável em que vivia. Esse pavor de castigo assumia proporções de superstição e aquele sonho soou aos seus ouvidos quase como premonição.

"Essa mulher não sabe pelo que passo, mas o Deus dela sabe e manda avisar. É isso, estou liquidado!"
Recomeçou então o martírio. Já imaginava as mudanças físicas pelas quais passaria. A vergonha em frente aos vizinhos. Planejou secretamente deixar a casa. Viver longe dali. Esconder o que não se pode esconder. Talvez deixasse uma carta para mãe. Agradeceria tudo que ela tinha feito. Diria a ela que estava sim pagando pelo próprio erro, mas um erro que não chegou a ser consumado. Um erro... Menor do que outros erros. Queria dizer que lhe cobravam um preço exorbitante pelo produto. Esse protesto foi incluído uma dúzia de vezes em suas orações. "Você é justo. É justo que eu pague dessa forma por algo que deixei de fazer? Confesso que não por amor de ti. Confesso que por medo justamente do que haveria de arcar depois. É isso que mereço?". Então sumiria. Alugaria um quartinho num lugar assim, assim, choraria a primeira noite até o Sol nascer e depois veria o que fazer.

Como os dias em companhia de sua mãe estavam contados resolveu passar com ela mais momentos. A abraçava mais, a beijava mais, fazia-lhe os gostos, levou-a ao cinema. No shopping ela passava pelas lojas e dizia "Devia comprar uma desses para você." Gemia internamente. Dizia consigo: "Se a senhora soubesse que mês que vem posso não estar mais em sua casa. Que uma vez fora dela precisarei de todas as minhas economias para viver uma vida medíocre. Pagando eternamente pelo meu erro." E apenas respondia "Vai saber"

Agora bebia da taça da opressão todos os dias. Seus únicos momentos de paz residiam no sono. Dormia cedo, acordava de madrugada e chorava como bebê. Quando o despertador tocava para o trabalho já estava cansado de tanto ruminar seu sofrimento. Nesse dia orou diferente. "Faz assim, Deus. Me leva. Prefiro morrer a passar por isso. Prefiro morrer!"

A dúvida lhe corroía as entranhas. Ou talvez fosse a certeza. Os sinais estavam lá. Seu corpo estava diferente. Os sintomas, o mal estar. O médico lhe dizia ser psicológico. O psicológico é forte. "Imagine você. Acontece com as mulheres. Aquelas que muito querem um filho e até mesmo aquelas que não querem de forma alguma. Gravidez psicológica. A barriga cresce e tudo. Dão leite. Tudo coisa da cabeça" E batia com a mão fechada na têmpora direita. Fez outros exames. De sangue. De toque. Ultrassom. Tudo dizia que não. Mas seria possível ninguém enxergar a verdade? Não se dava ao direito de acreditar nos negativos e negativos que se amontoavam em sua gaveta. Tinha pavor de ter esperança. Na verdade, o pavor residia em enganar-se achando que tudo estava bem quando na verdade não estava.

Pouco comia, mas sua barriga continuava grande. Como que inchada. Já não tinha paciência para a mãe e todas as suas observações pareciam desnecessárias e patéticas. Às nove se recolhia ao seu quarto. Tentava ler, mas o pensamento fugia por entre os dedos e no minuto seguinte percebia-se apalpando-se. Procurando a morte oculta no corpo. Sentia a pele suada. Uma sensação de desmaio. Tomava longos banhos, chorosos banhos. Depois, de corpo molhado, deita-se no chão, nu, com água por todos os lados e se tocava despudoradamente sem nunca chegar ao clímax. O prazer tolhido pelo pavor.

Agora sabia, não ter certeza é pior do que ter. Às vezes ansiava pelo maldito positivo para que pudesse finalmente ter um pouco de tranquilidade. Para que pudesse seguir a vida, mesmo que com sofrimento. Estava tão cansado. Tão cansado. Sua cruz parecia mais pesada do que todas. Então de súbito sentia-se renovado. Era adulto afinal. Podia tomar as rédeas de sua vida. Essa era a oportunidade. Não tinha sonhado ser dessa forma, mas a verdade é que nunca tivera coragem para deixar a barra da saia da mãe e fazer a coisa com as próprias mãos. Ela sempre lhe dizia que ele veria como levava uma vida fácil, como as coisas eram diferentes lá fora, que uma vez longe de casa, sentiria falta dela. Isso drenava-lhe a já pouca coragem que tinha. Acomodava-se por fim. Trinta anos, ainda morando com os pais. E já no minuto seguinte sentia-se outra vez destruído, só o pó. Ficou assim um mês inteiro e somando o mês do primeiro exame a esse, contavam-se dois meses de horror.

Dizem que todo homem tem pelo menos um momento de estoicidade durante a vida. Mesmo aqueles mais covardes e fracos. O que haveria de fazer a seguir reuniria toda a coragem que não teve naquelas três décadas. A verdade é que quis desistir duas ou três vezes. Mas olhou a barriga protuberante e se lembrou que já não vivia. Era como um vegetal. E no fim, sua sentença de morte já estava assinada e selada pelo Rei. Pesquisou qual seria a forma mais rápida de fazê-lo. Indolor seria impossível. Se tinha que sofrer, que fosse ligeiro. Escolheu um método qualquer. Estava tudo bem explicado na internet. Escolheu um domingo, pois era o dia em que sua mãe passava quase oito horas seguidas na igreja. Quando chegasse em casa seria tarde demais. Estaria consumado. Despediu-se do gato, Senhor Rogers. Bateu papo com um ou dois amigos através de mensagens. Disse até logo ao invés de adeus. Às 20:00 já estava acabado.

Mais tarde a autopsia revelou que tinha uma saúde de ferro. Realmente nada fora do lugar. A mãe não sabia explicar o porquê do suicídio. Chorava em bicas inconsolável a morte de seu único filho.
O legista cobrindo o corpo roxo com um lençol branco grosseiro dizia ao policial encarregado:
"O psicológico é terrível."

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Qual o seu lado? (Inspirado em Adultérios de Woody Allen)

Cal está parado perto do bebedouro, o braço esquerdo escorado no garrafão de água, na mão direita um copinho descartável minúsculo transbordando do pior café que ele já tomou na vida.
Gustav então se aproxima. Enche um copo de água e para ao lado de Cal. Eis a conversa que se segue.

GUSTAV - Bom dia, Cal.

CAL - Bom dia, Gustav. Tudo bem? Não lhe vejo há algum tempo.

GUSTAV - Não tão bem assim. Precisamos dum posicionamento seu, Cal.

CAL - Posicionamento? Sobre o que?

GUSTAV - Escuta Cal, o sobrinho quer saber qual é o seu lado.

CAL - Sobrinho? Meu lado? Do que você está falando, Gustav??

GUSTAV - É! O sobrinho, quer, saber, qual, é, o seu, lado. - Gustav diz as palavras bem devagar.

CAL -  Mas quem é Sobrinho? Algum funcionário novo?

GUSTAV- Não se faça de maluco, Cal. O sobrinho é o sobrinho, ora essa.

CAL - Não conheço nenhum sobrinho... É um nome?

Gustav o olha com impaciência.

CAL - Se não é nome por que então o chamam sobrinho??

GUSTAV - Don já estava em uso. Não vamos desconversar. Qual é o seu lado, Cal?

CAL - Não tenho lado algum.

GUSTAV - É lógico que tem lado! Se não tivesse seria uma circunferência. Você está vendo alguma circunferência aqui, Cal?

CAL - Não...

GUSTAV - Então desembuche. De que lado você está? Do nosso ou do deles?

CAL - Quem é "Nosso"? Quem é "deles"?

GUSTAV - Nós somos nós. Eles são eles. Não existe forma de confundir os lados.

CAL - Acho que não tenho lado, Gustav.

GUSTAV - Todos tem um lado. Você precisa decidir qual é o seu.

CAL - Isso não é jardim de infância, Gustav. Crianças têm grupinhos e escolhem lados. - Cal vai até a garrafa térmica e enche seu copinho novamente. - Isso tem gosto de merda! - Cal faz uma careta, mas continua bebericando o caldo preto. - Como eu ia dizendo, a vida é cruel com pessoas que escolhem lado... Prefiro me abster.

GUSTAV - A vida é cruel com quem fica em cima do muro. Lembra do Alex?

CAL - O que foi atropelado por um ônibus??

GUSTAV - Exato!

CAL - Está me dizendo que ele foi atropelado porque não escolheu um lado?!!

GUSTAV -  Estou te dizendo que não podemos dizer que o atropelamento não tem nada a ver com a imparcialidade dele.

CAL - Está me ameaçando, Gustav? - Cal pergunta com o copinho parado meio caminho até a boca. Agora realmente assustado.

GUSTAV - Por que eu lhe ameaçaria? Você está do lado deles?

CAL - Eu nem sei quem são "eles"!

GUSTAV - O sobrinho disse que você tentaria me passar a perna. Esperava mais de você, Cal.

CAL - Passar a perna?! Pelo amor de Deus, Gustav! Do que você está falando? Eu...Eu só vim beber meu café e sou pego nessa rede de intrigas. Vocês, eles.

GUSTAV - O pessoal do café está com eles. Eu não beberia esse negócio se fosse você.

Cal olha pro café meio desconsolado.

CAL - O café é ruim porque eles estão contra a gente?

GUSTAV - Então você está com a gente? Boa escolha, Cal! Boa escolha! - Gustav dá um tapinha em seu ombro.

CAL - Não! Eu não estou com ninguém! Quero saber se o café ser ruim tem a ver com o lado responsável por ele ser oposto ao seu.

GUSTAV - O café é ruim porque o pó já foi usado antes.

CAL - Deus do céu! E ninguém faz nada??? Essa birosca não tem dinheiro para pó de café novo? O Larry sabe disso???

GUSTAV - Quem não sabe disso? Preciso que você assine aqui. - Gustav puxa um contrato do bolso.

CAL - O Larry precisa saber disso. Você entende a gravidade da situação? Estou bebendo um café que já foi bebido. Isso com certeza deve ir contra alguma regra da minha religião.

GUSTAV - Aqui, na linha pontilhada.

CAL - Assinar o que? Para que? Deixe-me ler isso.

GUSTAV -  Você confia ou não na gente? Não foi por isso que escolheu nosso lado???

CAL - Eu não escolhi nada!!!

GUSTAV - Escuta aqui, Cal. Minha paciência está no limite. Nós lhe fizemos uma oferta super generosa e você além de rejeitá-la nos desrespeita. - Ele enfia o contrato de qualquer jeito no bolso da frente. Ficando com um volume suspeito nas calças.

CAL - Hã.. Tudo bem. Só me fale de novo sobre a proposta.

GUSTAV - Está me achando com cara de palhaço??? Não vou ficar repetindo tudo de novo e de novo.
Não sou do setor de compras. Eles também estão com "eles".

CAL - Aparentemente todo mundo está.

GUSTAV - Não. A secretaria é nossa. Conseguimos clipes sem precisar de licitação.

CAL - Será que você não teria uns sobrando? Usei os meus para prender a barra da calça.

GUSTAV - Só para associados.

CAL - Okay... - Cal passa um minuto olhando pros pés, as mãos dentro do bolso - Escuta, Gustav, e esse sobrinho? Ele é boa gente?

GUSTAV - O melhor, Cal. O melhor. Sabe a máquina de refrigerante da sala 15??

CAL - Ele que conseguiu aquela belezura???

GUSTAV - Não. Mas me pagou uma Fanta laranja assim que ela foi instalada.

CAL - Fiuuuu!!!

GUSTAV - Pensando bem, Cal. Acho que você não está a altura do nosso grupo. Devia ter abordado o Dave. Ele tem presença.

CAL - Dave Buttman??!! Aquele engomadinho? Por favor, sou muito melhor do que ele.

GUSTAV - Você não tem nenhuma habilidade especial, Cal. Apesar da bainha da calça bem feita.

CAL - Como não tenho habilidades especiais? Até o sobrinho concorda que possuo qualidades diferenciadas. Não foi por isso que ele te mandou aqui?

GUSTAV - Ééé.. Não é bem assim, Cal. Nós precisávamos de um rostinho bonito do nosso lado. Sabe, pra aparecer nas camisetas, chaveiros e botons. De longe você parecia a pessoa certa, mas agora, olhando de perto, você tem o perfil de uma hiena, Cal. Hienas não são boas para o negócio.

CAL - E que negócio é esse?? O jogo do bicho??? Ora vamos, Gustav. Deve ter alguma coisa que eu possa fazer do seu lado. Alguma coisa além de ser garoto propaganda. Vocês não tem nada pra carimbar? Eu sou ótimo carimbador.

GUSTAV - A Lisa cuida dos carimbos.

CAL - Tudo bem. Não quero tomar o lugar da Lisa.

GUSTAV - Nem poderia, ela tem peitos tão grandes que todo dia, no final do expediente, estão sujos das tintas no papel. Uma beleza de ver.

CAL - Mas e se a Lisa ficasse doente? E se tivesse tendinite pelo esforço repetitivo? Ou tivesse um tumor na mão do carimbo.

GUSTAV - Lisa é ambidestra.

CAL - Você tem que me colocar nessa, Gustav. Será que não poderia falar com o sobrinho? Me indicar.

GUSTAV - Vou ver o que posso fazer, Cal. Enquanto isso vou falar com o Dave. Eu te ligo assim que aparecer uma oportunidade. - Gustav se afasta enquanto acena levemente com a mão.

CAL - ISSO NÃO É JUSTO, GUSTAV!!!  Você vai ver, vou me aliar a eles. Ao pessoal do café. Vou cuspir no seu café, Gustav. Ah se vou. - Cal grita, mas Gustav já sumiu de sua vista.  - Não dou um mês pra esse lado mixuruca deles ir a falência. Quer saber? Acho que deveria fundar o meu lado. Três podem jogar esse jogo.

Lucy, a estagiária gostosa da sala 20, passa toda se rebolando em direção ao banheiro. Ela olha Cal e lhe pisca um olho pintado.

CAL - Ei, Lucy, qual é o seu lado???

domingo, 14 de julho de 2013

Estéril

Da hora do corvo

Esforço-me ante ao alvo fruto

Cyperua papyrus

Latim, meu latim

Das terras proibidas nos confins

Do avesso a mim

Que revoam e retorcem

Que castram e vivificam

Olhai por mim, Divino

Minhas entranhas cerebrais

Minhas ramificações neurais

Meus dedos viscerais

Fonemas inquietos

Curvas sem tangentes

Disformes dígrafos celestiais

Só fluxo e corrente

Concepções em espirais

Incendeia o corpo decadente

Liberando a alma fugaz

Carta a Rosa Maria

Querida Rosa Maria. Esposa por pura falta de opção, de tua parte, e comodismo de minha.

Sei que os recentes acontecimentos, reproduzidos um tanto alegoricamente por certos locutores de tino duvidoso, fazem-na abominar meu nome e tremer ante a simples menção de minha limitada existência. Entretanto, minha estimada gorducha adornada com glândulas sudoríparas ferozes, e diria eu, mais do que eficazes, ouve - E cometo aqui um erro quanto ao sentido que terás de usar para penetrar aos recôncavos de minha perversão. O que provavelmente não notarás porquanto mal sabes grafar o próprio nome. Motivo pelo qual  lhe desposei sendo o bucho que és, mas essa fica para a próxima missiva-, limpa os ouvidos e tenta concentrar-te em algo que não seja comestível, pois a ti, e somente a ti, ser de pouca instrução e cabalística alienação diante dos afazeres mundanos, revelarei a motivação de minha fornicação com o inominável.
Conheceis bem minha parentela. Passamos em casa de meus pais certa noite, e tenho esperanças de que estarmos a 120 Km/h não a tenhas impedido de ver a casa onde vivi e tornei-me o que sou.
O que não sabes mequetrefe, é que morei num inferno apagado, entre cinzas e fumaças.
Minha adorável mãe. Bruxa que a santa inquisição deixou escapulir por entre os dedos. Único homo sapiens com disposição para reclamar de segunda a segunda, da hora que seus meigos olhos reptílicos se abriam ao segundo em que tornavam, para felicidade geral, a se fecharem.
Grudava-se aos meus pulsos contando até mesmo as batidas de meu coração. Ao ver qualquer movimentação em direção ao banheiro, achava-se no direito, como genitora e semeadora de tão duvidoso DNA, de perguntar qual necessidade fisiológica desejava-se saciar naquela atividade. Fosse ela de natureza fecal,urinária, ou simples alívio manual.
Com os anos adquiriu o maldito hábito de rebolar naquela boca murcha, como um animal ruminante, arroz cru. Digo-vos pois que nem em África se comente tal abominação. Ao que os viventes, mesmo em vias de órgão devorando órgão para matar a perversidade da fome,esperam pacientemente ante a fogueira pelo cozimento do alimento provido pelo divino. Amém.
O som daquele cereal sendo triturado pelos dentes amarronzados da velha, as bochechas infladas pelo grande volume e a língua que vez ou outra fugia por entre os lábios para buscar um grão perdido ou salpicar o queixo com saliva me enervavam de tal forma que não podia concentrar-me em nada além da vontade de socar minha mão em sua goela.
Beijava-me e sentia como se tivesse um carrapicho na boca que me furava as bochechas e as têmporas. Sua voz era alta e parecia vinda de um cano de vaso entupido por uma massa fecal enorme. Limpava as narinas daquele nariz adunco e tucanal nas roupas íntimas. Nunca fechava a porta do banheiro, amaldiçoando o mundo com suas dobras abdominais carnudas, caídas por sobre a genitália e os pés em diagonal para dentro encerrando as canelas finas e enveiadas.
Daí para o homicídio foi um pulo, querido rabicozinho. As vítimas,todas mulheres. Pude antever em seus sorrisos afetados, no jeito como suas frontes suavam óleo de cozinha, na banha que se esparramava sobre os cós de suas calças o potencial para serem desolamento ambulante, quasares de infelicidade, mães minhas demais num planeta só.

P.S = Espero ansioso tuas páginas cheias das mais sinceras prosódias. Tente não xingar muito para não assustar teu colaborador e não chorar diante do fato de seres um fracasso na simples tarefa de escrever poucas linhas.
                                         
  Com amor, seu prestigioso marido.

Esquina.

Olhei pelo vidro do carro.
O sinal aberto e tudo indo tão rápido.
Mas ela estava ali, serena, talvez não por opção, apenas obrigação da idade.
Velhos andam devagar porque já tiveram toda a pressa de que necessitavam.
Aquele rostinho murcho.
Olhos cansados.
Eternamente trêmula.
O que se passava naquela cabeça de cabelos branquinhos.
Será que ela se lembrou do tempo em que atravessar a rua era corriqueiro?
Das muitas vezes em que se arremessou por entre carros sem hesitar?
Ou até mesmo que naquela época não existiam tantos carros?
Um ato antes tão simples se tornara um desafio.
Precisar de tanta ajuda para dar poucos passos.
Se alguém não lhe apoiar talvez nunca alcance o outro lado.
Entretanto, a boa vontade foi sepultada sob o asfalto.
Então talvez se sinta desolada demais.
E é sempre assim quando atravessa aquela rua pela manhã.
E toda vez que se levanta e lembra da rua por atravessar.
E toda noite quando vai se deitar e sabe que pela manhã haverá uma rua e a velha desolação.
A rua é a lembrança de que a morte é o futuro.
Chegar ao outro lado é transpor a última dificuldade.
Passar por horas difíceis, minutos, segundos até, é a garantia de ainda estar vivo.
Tudo para.
É hora de se apressar .
Enquanto puder atravessar,a vida está garantida.

Amme

Tudo o que tocava, murchava. Amizades e amores dilacerados, tatuados sobre a pele macia.Vivia sozinha à sombra da cerejeira que não a amava, apenas a suportava ao passar dos dias. E balançava ao vento, sem nenhuma palavra, sem nenhum aceno, apenas as flores rosinhas.
Tudo que tinha era um gato. Felino esnobe demais para ser magoado. Olhos brilhantes que assistiam a carnificina. Enquanto os corpos feridos atingiam o chão com força, o gato se esfregava em suas pernas finas. Sua única companhia.
Andavam naquele mundo isolados. Ela e o gato.E às vezes um curioso os seguia. Então sentavam ao pé da cerejeira, e de cima ela tremia. Tentando avisar o transeunte, repreendendo a coisa fria.
Tudo corria tão bem, mas ao chegar da terceira noite, o espírito que se escondia no além, esgueirando-se, aparecia, feria a alma de alguém e alimentava o gato com sardinha.
Pobre menina, ela nunca percebia. Mas quando seus olhos se anuviavam um grande desastre sobrevinha. Seus ossos cansados ardiam. Um outro estado a possuía.
Ao acordar do transe estranho. Lá estava o defunto caído. O gato lambendo os bigodes. A cerejeira chorando baixinho. O vento soprando tão calmo e o coração apenas vazio.

Script Além da imaginação – Stone

-E então Juju, conte-me o que aconteceu. – Instou a prima enquanto devorava educadamente o bolo de fubá servido por Iaiá, a empregada.
-Há muito meu marido não andava em seu juízo normal. No começo, brigava por qualquer motivo, sempre irritadiço. Depois passou a manter-se calado por longos períodos de tempo, sempre com um olhar amargo. Mexia nos livros e papéis sem nunca ler ou escrever uma nota. Resmungava baixinho pelos cantos alguma coisa sobre falar menos para manter-se a salvo. Dos sermões de domingo trazia para casa papeizinhos diversos com frases sobre pagar pelos erros cometidos na mesma intensidade que os cometera. Com o tempo, passou a trancar-se num dos quartos, aquele com uma estante grande. Passávamos a comida por uma fresta aberta rusticamente ao pé da porta. Diversas vezes protestei não poder falar com ele sem que ao menos me olhasse nos olhos. Daí permitiu que um homem entrasse e colocasse um olho mágico. Assim, dizia ele, eu teria certeza de que estaria sendo ouvida com atenção.
Implorei que me contasse o motivo de tamanho pavor da vida, mas só pôde me dizer que se convivesse com as pessoas não poderia evitar feri-las e isso lhe traria sofrimento em dobro. Certa manhã fui acordada por Iaiá. O jantar continuava à porta, negro, tantas eram as formigas. Ora, aquilo me deixou muito irritada. Entrei no aposento sem ao menos bater e para a minha surpresa, lá estava ele, duro como pedra. Virou estátua.
O doutor diz não haver pulso ou atividade cerebral. Já eu, sempre quis uma escultura na sala. – Olhou para o marido petrificado em pé próximo a porta, braços abertos e deu um sorrisinho de satisfação –Também o usamos como cabideiro.

A cena para. O locutor entra andando na sala.

-O que a Senhora Lora não sabe é que seu marido tornara-se obcecado com a ideia de pagar por causar sofrimento a pessoas que ele considerava completamente insignificantes.  Egoisticamente afetado e procurando uma saída, cortou os laços com tudo que podia vir a magoá-lo, evitando contato com seres humanos, fossem esses contatos físicos ou verbais. Dia após dia, perdendo sua humanidade tornara-se cada vez mais rijo, até virar um simples bloco de pedra. Um telespectador da vida ao seu redor. Nunca ferido, mas também nunca considerado, vivendo num mundo Além da imaginação.

O ser

Eu queria mesmo era ser. Mas o que quero ser não sou, e o que sou ninguém quer ser.

Se eu fosse o que queria ser, seria completo.

Mas o que é não vem a não ser, o que é não se move, se acomoda.

O que não é nunca será, mas por não ser ignora sua falta de sorte e se debate para que um dia seja.

Os que são estão em equilíbrio.

E o equilíbrio é o ferro.

E o ferro não está vivo.

E a morte é estática.

Então que eu não seja para que me mova.

Correndo eternamente na ignorante tentativa de ser.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

O porco

The human Death

Ao longe o uivo solitário de um vira-lata esquecido pelos donos. Em casa apenas silêncio e morbidez. Deitada no sofá ela tomou o último trago de mel. O álcool queimou sua garganta arranhada e o gosto doce revirou suas entranhas. Uma lágrima quente escorreu pelo canto do olho indo aconchegar-se no cabelo emaranhado. Viu o porco e desejou ser o porco. O que se alimenta de seus semelhantes se for necessário para que viva. De carne tenra. De orgasmos infinitos. De muitos filhos redondos e rosados.

"É isso" - Pensou consigo - "Morro eu para que ele viva". Despediu-se de Mistery Beth, que soltava vários iaus da janela, despejando todo o saco de ração pela sala. Olhou-se uma última vez no espelho. Sorriu. Vestiu a máscara.

The Pig Birth

O vento lá fora estava gelado. Sabia-se gelado pois todos vestiam seus casacos pesados de cores neutras. Para o porco, vento era vento e não fazia diferença ao chocar-se contra seu novo couro suíno.
Deu alguns passos e maravilhou-se com seus cascos. Notou também que algumas pessoas riam, outras atravessavam a rua para evitá-lo e alguns cochichavam coisas que, naquele momento, pareciam inteligíveis. Algo como grunhidos.
Um peso na pata direita fez notar que trazia consigo um pé-de-cabra. Tinha fome. Fome de recém nascido. Fome de calor. Fome de vida. Ahhh, há quanto tempo sentia fome de vida! Cheirou o ar e foi invadido por uma gama de diferentes sensações, umas delas muito especial. Vinha de uma mocinha, emanava de seu corpo desenhando no ar ao seu redor rabiscos de luz, como rabo de comenta. Naquele momento soube, teve a percepção plena de que poderia comê-la. Para o bem de outros um porco honrado se sacrificava.
Atravessou por entre os carros que buzinaram em protesto. Dois se chocaram. A mulher olhou para a rua assustada, o porco sorriu, ele já estava perto demais. Cortou o ar com o pé-de-cabra, partiu-lhe a cabeça ao meio, montes de luz quentinha explodiram a sua volta, respingando em seu rosto, o coração acelerou, cada vez mais força, cada golpe mais letal. Agora tudo não passava de uma sopa de ondas eletromagnéticas. Não podia se conter, grunhiu forte como os irmãos fazem no abatedouro e jogou-se em meio à luz. A língua comprida ainda percorria cada orifício quando novas luzes atingiram-lhe a cara bochechuda. Ouviu mais grunhidos e não soube identificar o que significavam. Pôs-se de pé, abriu bem a boca, para que pudessem entendê-lo, levantou o pé-de-cabra e disse:

-Venham!

Foram como estalos. Balas que atingiram seu corpo macio. Sentiu o chão duro chocar-se contra o lombo e percebeu nitidamente o tilintar do pé de cabra ao cair mais adiante. Viu todos os porcos que se aproximavam, olhos esbugalhados, famintos eles também de vida, vida que ele tinha por todo corpo agora. Sentiu-se feliz.

"Um porco honrado sacrifica-se pelos demais!"


Murderous Pig's Death

O assassino trajava um macacão de mecânico e uma máscara de borracha de porco. Atacou a estudante, fulana de tal, de surpresa, deu-lhe de 7 à 10 golpes utilizando um pé-de-cabra. Após a agressão, o meliante chupou os ossos expostos da vítima. Uma testemunha chamou a polícia que chegou ao local em questão de minutos.

O cabo fulano de tal relatou que ao receber o comando para largar a arma e se afastar do corpo o "Porco" levantou-se, ergueu o pé-de-cabra andou em direção da polícia e emitiu um sonoro "Roinc!". Temendo por sua integridade o cabo descarregou a arma contra o lunático que morreu no local.

O GATO



Ele se sentava todas as noites diante daquele maldito computador, olhando aquela pequena barra piscando sobre a página em branco, esperando ser estuprada pelas letras, pela história, por um mundo novo. O copo de café já estava vazio pela centésima vez, o pulmão pedia arrego depois do terceiro maço de cigarros, um dos olhos já não funcionava mais. Ele esperava pela criatividade.
Tinha mil ideias geniais a princípio, mas que com o tempo se tornavam tão enfadonhas, tão desconexas, ele simplesmente não podia terminá-las, não sabia como. Escrever era uma necessidade. Escrever, escrever, escrever. Mesmo se houvesse um início e não houvesse um fim. Talvez fizesse umas ilustrações. Precisava se barbear, pentear o cabelo -caso encontrasse o pente. Era uma vez não era um bom princípio, era?
Apoiava a cabeça entre as mãos, o corpo tremia, o coração batia na cabeça, assim entre os ouvidos. Pense, pense, pense. Mas o cérebro já estava exausto. Mordia a cabeça dos dedos “despelados”. Arrancava tiras e mais tiras do próprio couro. Devia comer alguma coisa..Que tal uma história sobre um assassino glutão? Mas comer era nauseante e mastigar, e mastigar enquanto podia estar revolucionando um mundo.
Ele não suportava toda essa liberdade. Sabe. Começar do zero. E se as pessoas odiassem? Mas por que ele deveria escrever para as pessoas? Por que se importar tanto? Allan Poe se importava? Ele conhecia um Allan, não conhecia? Ou será que ele escreveu sobre esse tal Allan? Outro dia deu de cara com uma mulher no banheiro de casa, conversaram sobre o tempo, mas no final era só outro conto caído no assoalho.
Correu os olhos pelo quarto escuro, sentiu uma presença por ali, ou só a arara segurando algumas roupas, um chapéu de cowboy. Olhou para o chão e viu uma sombra que entrava pela janela, a silhueta de um gato. O bichano o encarava, aquelas duas butucas brilhantes “impiscantes” vidradas em seus dois olhos vermelhos. Sabia que de uma terceira perspectiva eram apenas dois pares de bolas luminescentes num vazio cheirando a câncer. A coisinha peluda lambeu uma pata, olhou para trás uns segundos, virou entediado:

- Vai abrir isso aqui? – Bateu com o rabo no batente da janela. - Que isso!? A voz do gato era mais grossa do que a dele. Coçou a ponta do nariz, será que deixava ele entrar, ele parecia ameaçador. Andou devagar até a janela.

-Peraí. – Pediu ao gato. Abriu o vidrinho, prendeu com o trinquinho, o vento gelado entrou no quarto violentamente, uma placa de fumaça velha saiu pela janela, deu um pequeno aceno. Foi danificar a saúde de outras pessoas.

Aquela bunda peluda andou até o computador, subiu na mesinha, passou os olhos sobre algumas folhas sobre a mesa, deu um riso de deboche, sentou, levantou e re-sentou:

-Vai ficar aí? - Perguntou com aquela voz de chefe de quadrilha. – vou começar a ditar. - Ele correu e se arrumou na cadeira. Colocou os óculos que mais serviam de enfeite. Escreveu cada palavra do gato. Buscou café para os dois. O gato bebeu na xícara, ele bebia no copo. O gato gostava de açúcar, ele não. Às vezes discutiam uma frase que para ele parecia mal colocada. O gato franzia o focinhozinho, lambia o saco, talvez para tirar o gosto ruim de discussão da boca e voltava a falar freneticamente.

Quando já estava cansado de digitar o felino saía pela janela e desaparecia. Foi assim por várias noites. O livro já tinha tantas páginas que ele nem se lembrava sobre o que estava falando. A impressora cuspia florestas e mais florestas, cheias de palavras por todo o quarto. Ele só se levantava para socar mais folhas na cestinha e logo corria e escrevia, escrevia, até que adormeceu.
Abriu os olhos e se viu diante do computador, digitando maquinalmente. Estava realmente acabado, pensou enquanto lambia uma das patas e depois o próprio rabo. Engasgou com o pelo e percebeu que a voz do gato era sua própria voz. Então ele era o gato? Desceu da mesinha e andou pelo quarto. Ouvia melhor, cheirava melhor, era tão mais ágil. Roçou em alguma coisa. Tão bom ser autossuficiente. Até se deparar com a janela. Ainda estava aberta. A luzinha de um poste entrava pelo buraco iluminando tudo à sua volta. Pulou muito fácil, quase nem percebeu e então fez o que sempre quis, saltar pra rua como o gato.
Sentiu o gosto de sangue na boca, o asfalto gelado sob o corpo moído, sua última visão foi um ponto preto na janela rindo adoidado, enquanto soltava algumas folhas pela noite gelada. Uma delas caiu bem sobre seu rosto. O seu livro amado. Milhares de vezes repetida a frase "Eu sou o gato".

Toccata e Fuga

- Vovô, falo sério! O senhor deveria tomar jeito.Vê, nem amigos possui. Sai todo os dias solitário, volta solitário. O que será de sua vida quando ausentar-me?

- Serei feliz! - O velho respondeu, cobrindo a cabeça com o velho chapéu preto, armando-se de sua bengala mais que arranhada. - Não me espere para o jantar.-Saiu batendo a porta às costas.

Já a rua respirou um bom bocado do ar gelado do inverno que tanto apreciava. Viu o porteiro saudando-lhe, mas deu de ombros e foi embora. Caminhando a passos lentos,não o queria, mas pôs-se a pensar nas palavras da neta. Considerava-a uma louca libertina, mas talvez estivesse certa. Havia muito ele se ausentara, conscientemente, dos círculos sociais. Achava-se completamente inadequado. Suas amizades duravam somente até o primeiro desentendimento. Não podia suportar as opiniões ignorantes da massa aberralítica. Quanto a mulheres, bem, uma parte sempre se desinteressava. Cultivara vários amores simultâneos , até ler em algum canto que a "Renúncia era liberdade". Foi o suficiente. Isolou-se em sua bolha maestral ao som de Toccata e fuga.

Rumava em direção ao costumeiro Café oliviatis quando percebeu-se vagando num passado muito distante, ainda moço, ouvindo dos lábios da mãe, bondosa senhora, o veredicto de sua vida." Morrerás sozinho num apartamento fedido!". Velha danada. Acertara na mosca. Sentiu necessidade de contrariá-la. Talvez pudesse ser mais amável. Não precisava falar, apenas sorrir. Isso ele ainda sabia fazer,não é?! - Sentou-se à mesa costumeira no canto do café e deu um leve sorriso à garçonete que sempre lhe atendia e pareceu um tanto quanto surpreendida pela repentina simpatia do velho turrão, a quem a staff apelidara carinhosamente de Capitão Ahab (Mob Dicky).

- O de sempre? - Ela Indagou por obrigação. Ele nunca bebera nada que não fosse café sem açúcar. Açúcar é doce, amor é doce, tais analogias o faziam doente.

Era isso. Seria um novo homem. Amável. Bondoso. Amado. Não morreria só. - O café chegou. Ainda com um sorriso ele sorveu uma golada. Levantou-se de um salto, cuspindo e...

- P... merda! É isso que chamam de café?? Já bebi água de poço mais encorpada! - Pegou o chapéu e a bengala, atirou as moedas do pagamento por cima do ombro e saiu sem olhar para trás.

Já à porta pensou consigo:

-É! Não depende de quem quer ou de quem corre...

(Sem título)

PARTE I

Não que esteja bom. Só não faz qualquer sentido. Não vou fazer a barba hoje nem amanhã. Não é estética, nem vaidade, nem metrossexualidade histérica, só não acordei pendendo para a higiene pessoal escultural dos meus pelos faciais. Talvez eu passe essa lâmina e desenhe um coração nessa bochecha, ou uma águia, não, não, detalhado demais, talvez só faça uma reta, uma reta limpa de pelos, os pelos que são obstáculos, talvez dê uma metáfora, uma metadentro, ou só fique ridículo.
Quem iria notar? As pessoas, mesmo os velhos tiozinhos e as velhas peruinhas, descoladas espiritualmente, para frentex, como diriam, não notam coisas bisonhas, ou fingem não notar. Elas devem olhar de soslaio, aquele olhar em que a bola preta dos globos oculares some de tanto esforço lateral.
Dizer a uma pessoa “Ei, a sua barba faz a sua cara parecer a bunda de um macaco!” não é aceitável. Não porque o cara não pareça realmente os glúteos primatais e sim porque julgar singularidades não está na moda. Liberdade é o que há!
Se por acaso aparecesse um pobre diabo que graças às traquinagens da natureza, nasceu defecado e cuspido a cara daquele fundador do Nazismo, o homem com nome que não se pode pronunciar, e dissesse as massas, enquanto cuspia bolo de chocolate sobre a multidão apaixonada: Queimem os porcos. Eles querem dominar o mundo. O rabo bifurcado nada mais é do que um aparelho radiofônico anal que transmite os sons emitidos em seu hábitat natural – Talvez a lama gosmando, ou a patroa porca dizendo: “Querido, Fred, Francisco, Frederico, Fredembaldo, Fredembuldo, Frorinda, Francesa e Frenesi sumiram!” ao que o querido responde em código: “Não querida, eles foram apenas empalados, assados e decorados com maçãs vermelhas fritas!”, na verdade querendo dizer: “Agente 69, os recrutas foram enviados de volta a Porcolândia, devidamente munidos de suas maçãs teletransportadoras!” O gancho dos abatedouros prateados cintilando no escuro, se esbarrando e tilintando à espera de toda aquela carne gordinha. Quando a conquista de um mundo não exigiu algumas baixas? – E informa o interespaço de nossas ações. Com certeza 999 pessoas, reparem que novecentos e noventa e nove invertido é o mesmo número da besta, acreditariam fervorosamente no deficiente mental com bigode de rabo de boi.
Sim, estou sendo teatral. Sim, estou sendo banal. Que artista não é? Que sentido há em ter palavras se não podemos jogar com elas? Por que eu deveria usar as mesmas expressões todos os dias, e ser igual todos os dias, e não exagerar todos os dias? Que paixão há em não ter paixão? Eu me apaixono todos os dias. Apaixono-me por mim, e por eu mesmo, e por aquele rapaz simpático no espelho. Sinto dó dele, tão odiado, inesperado e subjugado.
Eu enceno para as pessoas. Eu perco minha identidade. Sou narcisista, modista, extremista e anarquista. Sou ciumento, depressivo, torcedor, filósofo, amigo e impessoal.
Às vezes eu me pergunto se só eu tenho um eu para cada ocasião ou se todas as pessoas têm uma gama de eus como sapatos no armário. Se todos possuem essa pluralidade de personalidades, não uma mudança agressiva que transforma o lobo mau em chapeuzinho vermelho, porém, uma leve diferença no olhar, no pensar e se comportar, se for desse jeito ninguém jamais será conhecido por inteiro e para uma única pessoa existiria um grande número de vidas que coexistiriam paralelamente. Entretanto, parece impossível que uma pessoa portadora das mais diversas limitações seja capaz de manter separadas, como em arquivos velhos, cada uma dessas formas de existência. Deve ser esse o motivo pelo qual as pessoas não me amam. Imagine você começar a conversar com Edgar Allan Poe e terminar o diálogo diante de Sir. Arthur Conan Doyle. Perturbador.
Hoje pode não fazer sentido. Você lê isso e diz: “É um maluco!” Mas eu digo que releio e afirmo “É isso!” O ardor incalculado da ideia exagerada. Chama-se hipérbole no português? Ou seria hipérbole apenas uma curva no R3? Eu não sei agora. Não sei de nada agora. Só sei que está tudo rodando e torto, o vento me enverga e diagonaliza, e eu nem bebi porque gosto, mas sim porque eu queria impressionar os bebedores, horrorizar os sóbrios e castigar o idiota que amanhã pela manhã vai comer pão com gosto de areia.

PARTE II

Não se diz a um filho: Não beba! É muito geral, muito conflitante, eu diria, angustiante, tipo aquelas questões traidoras com aproximadamente 999 respostas - repare novamente no 666 - que faz um sujeito decidido pifar. O que é para deixar de ser bebido? Deus no Éden não disse: Bebei de toda água, menos daquela fonte de 88, Caninha brava. Quer dizer, naquele lugar Ele não vetou o álcool. O café pode ser muito prejudicial à saúde. Ouvir dizer uma vez que um sujeito tomou muito café em frente ao computador, ele estava jogando certo?! Uma partida daquelas que você não pode parar nem se estiver se cagando, e então depois de uma semana plugado, ele morreu. Tá certo que ele ter passado sete dias olhando todas aquelas cores epiléticas, sem descanso, sem comida saudável, à base de pixels e softwares deve ter feito muito mal, mas eu mudo de nome se o maldito do café não tiver um dedo nisso. Não confie em uma coisa que não te permite ver o fundo de sua própria caneca.
O que eu quero dizer, se é que alguém quer saber, é que se você aconselha uma pessoa a não fazer certa coisa tem de informá-la também o porquê de tê-lo feito.
É assim, como as mães de antigamente faziam. Elas falavam: Me obedeça ou o velho do saco te leva embora! Ninguém quer viver no saco de um velho. É deprimente!
Então, tem um motivo. Não quer ser levado pelo velho do saco? Obedeça! Depois disso os pobres infantes tomavam conta de todo e qualquer idoso com um saco nas costas. O fato de que, se o velho levasse mesmo as crianças ele não conseguiria sequer levantar o saco,  não tem nada haver com a gravidade da situação. Contudo, as crianças ainda desobedecem. Não que não tenham medo do sequestrador ancião, mas necessitam saber a graça de desobedecer. Logo, o que as mães deviam dizer? Se você me desobedecer fará o que quer, isso vai te deixar feliz, porém o velho do saco te levará.
Como com a bebida. Te avisam: Não beba! Não comunicam: Se beber você vai se desinibir e controlar o mundo com as mãos. Levar 30 minutos para cobrir um espaço de 2 metros, pois os bêbados se esquecem da linha reta e lembram que a trajetória não altera o resultado. Ser popular enquanto houver etanol na sua corrente sanguínea, tombar e dormir. Beberá cada vez mais procurando essa espécie de carisma engarrafado, tirará dinheiro do próprio bolso para dar a família Walker e morrerá a míngua, marginalizado, cheirando a mijo a.C. Só mesmo os russos insistiriam depois dessa previsão barra admoestação.
Eu sei, parece lição de moral. Não é. Só estou tentando me convencer dos meus próprios pontos de vista enquanto debruçado sobre a porcelana sanitária barra vomitôdromo oficial.
A situação toda é no mínimo bisonha. Fui a uma festa. As pessoas deveriam se divertir em festas, comer, conversar, socializar. Bebi para descontrair. Dancei. Bebi para acompanhar alguém. Conheci umas pessoas. Bebi para me exibir. Beijei alguém. Jéssica, Teobaldo, não sei bem, não consigo lembrar. Bebi por beber. Bebi para cair. Caí.
Ou eu bati com a cabeça muito forte no chão e danifiquei meu córtex cerebral, ou a bebida me deu amnésia. Acordei no quintal de casa umas nove ou nove e meia da manhã e agora estou aqui, diante do bocão esperando que o próximo volume que saia pela minha boca não seja meu estômago, e imaginando como cheguei ao lar, doce lar.
Será que Deus está no céu sentado em seu trono reclinável, enquanto come batata frita industrializada sem gordura trans- realmente sem gordura – me olhando e comentando com #@$!ael, anjo das batatas de saquinho, o quanto eu sou um merda? Ele diz:
- Tá vendo?! Eu faço esse idiota, coloco no topo do mundo, apenas inferior ao capim, dou um cérebro, a capacidade de distinguir irmãs, tias e mães de reprodutoras e possíveis parceiras sexuais e ele me retribui enchendo a cara!
Decepcionar Deus é uma audácia muito homo sapiens. É tipo como, imaginem, se os computadores se virassem contra nós. A gente diz a eles, usem o Blue Ray disc e eles enfiam disquetes goela abaixo. Quer dizer, o Cara permite que uma pessoa qualquer invente o refrigerante, “Celulites são melhores do que transplante de fígado” Ele diz, e mesmo assim as pessoas preferem ser retalhadas, isso quando há um fígado para que possa haver o corte e quem sabe metade de uma vida nova para estragar o fígado novo. Afinal de contas, é de outra pessoa mesmo. Tsc tsc.