Começou como uma leve insinuação.
Seria possível?
Pensou e repensou a situação. Não. As chances eram pequenas, se não minúsculas. Mas a verdade é que existia uma chance. Ainda que remota. E os céus são testemunhas de que para ser castigado, para que seus pecados venham à tona, para que Deus mande fogo consumidor do alto basta apenas uma possibilidade do tamanho dum grão de mostarda.
A primeira semana passou e já sentia os sintomas. Náuseas. O estômago pesado. A pressão oscilante. Falta de apetite. Tentava, entretanto não conseguia pensar noutra coisa. Sentia um peso no corpo, uma opressão gigantesca. Calculava a proporção que aquilo podia tomar. Todas as coisas que perderia. Como as pessoas iriam reagir ao receber a notícia. Os vizinhos, Deus!, os vizinhos, o que eles diriam?
Já não se concentrava no trabalho. Atendia mal as pessoas. Sem paciência. Todas as vezes em que lhe pediam informações, indignava-se. "Quem essa gente pensa que é? Não sabem que os outros têm problemas de verdade para resolver?"
Passava muito tempo no banheiro. Medindo-se. Às vezes levantava a blusa. Procurava por algo diferente. Um vestígio da danação. Chorava e implorava a Deus por compaixão. Começou pedindo que Deus tivesse misericórdia, depois, sentindo-se infame, pediu que Deus apenas usasse da misericórdia que Ele já possuía. Mas a verdade é que a Divindade permanecia em silêncio. Então sentia como se o julgamento viesse de cima. Implacável. Duro. Sentia os olhos do Senhor gelados em suas costas. E Sua respiração em seu pescoço. Sabia-se culpado e nesses raros momentos de lucidez cristã limitava-se a dizer em alto e bom som que "A vontade do Senhor deveria se cumprir" e que seu papel era apenas o de sofrer as consequências de seu pecado.
Em meio a angústia, sem poder se confessar para a família, resolveu procurar um médico. Afinal de contas, qual era a medida de seu conhecimento no campo das ciências? Como poderia diagnosticar-se? Por que acreditar no relato de leigos? Apegava-se a esse mantra e por alguns momentos sentia-se melhor.
Já no consultório, o médico, um senhor de idade, fez-lhe os exames próprios a situação, ouviu seu relato paciente e atenciosamente somente para dizer-lhe que era impossível. Não havia nada ali. Estava vazio. Não havia com o que se preocupar. Mesmo assim, para desencargo de consciência, passara-lhe alguns exames. Despediu-se com um abraço. "Por favor, não se preocupe. Tudo ficará bem."
Saiu dali com os olhos inchados. Na verdade, chorar em frente ao médico foi libertador. Chegou a conclusão que sofrer em silêncio mata mais rápido. Correu ao laboratório imediatamente. Um Sol escaldante fazia-lhe ensopar a roupa. E apesar da cidade estar apinhada de gente, sentia-se na mais perfeita e ampla solidão. Nos lábios uma outra oração. Ou talvez apenas a repetição do "Por favor!"Como se de muito repetir fosse finalmente ser ouvido. As atendentes eram simpáticas. Mas teve vergonha de solicitar o exame. Elas saberiam imediatamente.
O resultado ficaria pronto no mesmo dia. E esse foi o pior dia. Era nisso que pensava a todo momento. "E se der positivo?" A comida não tinha gosto. As pessoas não tinham graça. Não conseguia sorrir. A pele estava amarela. O amargor interno escapava pelos poros. Não raramente os olhos se enchiam de lágrimas em meio as conversações do dia a dia. Fingia uma irritação, um cisto. Corria para o banheiro. Seu mais fiel amigo. Seu grande refúgio.
A definição de seu destino sairia às 17h. Trinta minutos antes entrava laboratório a dentro. Roía as unhas uma por uma. As pernas balançavam como se tivesse parkinson. Chamaram seu nome e agora tinha nas mãos o envelope lacrado. Enquanto brigava com um grampo que prendia o papel dobrado sentia o coração bater na garganta. "É agora!" Abriu a folha e os olhos prescrutaram cada centímetro. Então, no canto esquerdo superior, bem resumido, leu seu nome, sua idade, o método usado no exame e um negativo. Respirou aliviado. Percebeu-se sorrindo. Desceu as escadas jovialmente. Livre enfim! Voltou para casa e nunca esteve tão feliz.
Interessante como é só nos piores momentos que percebemos as dádivas que temos. Enquanto sofria entendeu finalmente que não queria perder nada do que tinha. Suas condições eram as melhores possíveis. Até o que lhe incomodava faria falta. Jurou comporta-se, jurou que não faria mais nada que pudesse colocá-lo novamente naquela posição, refém da Lei. Faria tudo certo agora. E a verdade é que aquele "negativo" abria muitas possibilidades. O mundo era o limite. Tudo seria diferente.
Uma semana, bastou uma semana para que esquecesse a recém adquirida cristandade e voltasse a encher os pensamentos de volúpia. A sombra amarga do castigo jazia longe, não podia mais alcançá-lo. Estava livre e a liberdade quase nunca é usada para o bem nessa Terra. E Deus sabendo de sua predisposição para o mal resolveu relembrá-lo de sua condição vil e carnal.
Estava deitado em sua cama quando notou o estômago alto. Como que oval. Ora, era de uma magreza cadavérica, nunca tinha visto aquilo. Levantou-se, mediu a barriga no espelho, a mãe que passava pelo quarto disse algo como "Eu tinha notado, mas não quis dizer nada para não ser chamada de chata." Teve medo.
Aos poucos a aflição retornava a sua cabeça. Procurou por experiências parecidas na internet. Leu que exames falham. Uma frase fez seu mundo cair "Um exame é apenas um exame, não constitui de nenhuma forma a situação em si, por isso pode sim falhar". Já não podia mais confiar em seu negativo. Era isso, estava liquidado.
De folga aquele dia, sentou-se ao lado da mãe no sofá para assistir os matinais. Distraído em suas próprias conjecturas, foi chamado a realidade pela voz distante da mulher: "Agora vê se pode. Perder outro filho! Essa manhã sonhei que andava a teu lado e de repente sumias. Estava sozinha"
Verdade seja dita, há muito não frequentava igreja e se dizia sem religião, mesmo que crente. Sua educação tinha sido estritamente cristã e se hoje, crescido, deixava de fazer coisas que o Evangelho pregava como pecados mortais, não o fazia por fé, mas sim por medo das consequências de seus atos. Era medroso por natureza. E seu maior pavor era perder a condição confortável em que vivia. Esse pavor de castigo assumia proporções de superstição e aquele sonho soou aos seus ouvidos quase como premonição.
"Essa mulher não sabe pelo que passo, mas o Deus dela sabe e manda avisar. É isso, estou liquidado!"
Recomeçou então o martírio. Já imaginava as mudanças físicas pelas quais passaria. A vergonha em frente aos vizinhos. Planejou secretamente deixar a casa. Viver longe dali. Esconder o que não se pode esconder. Talvez deixasse uma carta para mãe. Agradeceria tudo que ela tinha feito. Diria a ela que estava sim pagando pelo próprio erro, mas um erro que não chegou a ser consumado. Um erro... Menor do que outros erros. Queria dizer que lhe cobravam um preço exorbitante pelo produto. Esse protesto foi incluído uma dúzia de vezes em suas orações. "Você é justo. É justo que eu pague dessa forma por algo que deixei de fazer? Confesso que não por amor de ti. Confesso que por medo justamente do que haveria de arcar depois. É isso que mereço?". Então sumiria. Alugaria um quartinho num lugar assim, assim, choraria a primeira noite até o Sol nascer e depois veria o que fazer.
Como os dias em companhia de sua mãe estavam contados resolveu passar com ela mais momentos. A abraçava mais, a beijava mais, fazia-lhe os gostos, levou-a ao cinema. No shopping ela passava pelas lojas e dizia "Devia comprar uma desses para você." Gemia internamente. Dizia consigo: "Se a senhora soubesse que mês que vem posso não estar mais em sua casa. Que uma vez fora dela precisarei de todas as minhas economias para viver uma vida medíocre. Pagando eternamente pelo meu erro." E apenas respondia "Vai saber"
Agora bebia da taça da opressão todos os dias. Seus únicos momentos de paz residiam no sono. Dormia cedo, acordava de madrugada e chorava como bebê. Quando o despertador tocava para o trabalho já estava cansado de tanto ruminar seu sofrimento. Nesse dia orou diferente. "Faz assim, Deus. Me leva. Prefiro morrer a passar por isso. Prefiro morrer!"
A dúvida lhe corroía as entranhas. Ou talvez fosse a certeza. Os sinais estavam lá. Seu corpo estava diferente. Os sintomas, o mal estar. O médico lhe dizia ser psicológico. O psicológico é forte. "Imagine você. Acontece com as mulheres. Aquelas que muito querem um filho e até mesmo aquelas que não querem de forma alguma. Gravidez psicológica. A barriga cresce e tudo. Dão leite. Tudo coisa da cabeça" E batia com a mão fechada na têmpora direita. Fez outros exames. De sangue. De toque. Ultrassom. Tudo dizia que não. Mas seria possível ninguém enxergar a verdade? Não se dava ao direito de acreditar nos negativos e negativos que se amontoavam em sua gaveta. Tinha pavor de ter esperança. Na verdade, o pavor residia em enganar-se achando que tudo estava bem quando na verdade não estava.
Pouco comia, mas sua barriga continuava grande. Como que inchada. Já não tinha paciência para a mãe e todas as suas observações pareciam desnecessárias e patéticas. Às nove se recolhia ao seu quarto. Tentava ler, mas o pensamento fugia por entre os dedos e no minuto seguinte percebia-se apalpando-se. Procurando a morte oculta no corpo. Sentia a pele suada. Uma sensação de desmaio. Tomava longos banhos, chorosos banhos. Depois, de corpo molhado, deita-se no chão, nu, com água por todos os lados e se tocava despudoradamente sem nunca chegar ao clímax. O prazer tolhido pelo pavor.
Agora sabia, não ter certeza é pior do que ter. Às vezes ansiava pelo maldito positivo para que pudesse finalmente ter um pouco de tranquilidade. Para que pudesse seguir a vida, mesmo que com sofrimento. Estava tão cansado. Tão cansado. Sua cruz parecia mais pesada do que todas. Então de súbito sentia-se renovado. Era adulto afinal. Podia tomar as rédeas de sua vida. Essa era a oportunidade. Não tinha sonhado ser dessa forma, mas a verdade é que nunca tivera coragem para deixar a barra da saia da mãe e fazer a coisa com as próprias mãos. Ela sempre lhe dizia que ele veria como levava uma vida fácil, como as coisas eram diferentes lá fora, que uma vez longe de casa, sentiria falta dela. Isso drenava-lhe a já pouca coragem que tinha. Acomodava-se por fim. Trinta anos, ainda morando com os pais. E já no minuto seguinte sentia-se outra vez destruído, só o pó. Ficou assim um mês inteiro e somando o mês do primeiro exame a esse, contavam-se dois meses de horror.
Dizem que todo homem tem pelo menos um momento de estoicidade durante a vida. Mesmo aqueles mais covardes e fracos. O que haveria de fazer a seguir reuniria toda a coragem que não teve naquelas três décadas. A verdade é que quis desistir duas ou três vezes. Mas olhou a barriga protuberante e se lembrou que já não vivia. Era como um vegetal. E no fim, sua sentença de morte já estava assinada e selada pelo Rei. Pesquisou qual seria a forma mais rápida de fazê-lo. Indolor seria impossível. Se tinha que sofrer, que fosse ligeiro. Escolheu um método qualquer. Estava tudo bem explicado na internet. Escolheu um domingo, pois era o dia em que sua mãe passava quase oito horas seguidas na igreja. Quando chegasse em casa seria tarde demais. Estaria consumado. Despediu-se do gato, Senhor Rogers. Bateu papo com um ou dois amigos através de mensagens. Disse até logo ao invés de adeus. Às 20:00 já estava acabado.
Mais tarde a autopsia revelou que tinha uma saúde de ferro. Realmente nada fora do lugar. A mãe não sabia explicar o porquê do suicídio. Chorava em bicas inconsolável a morte de seu único filho.
O legista cobrindo o corpo roxo com um lençol branco grosseiro dizia ao policial encarregado:
"O psicológico é terrível."
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