Tragédia. A tragédia tem seu apelo, não podemos negar. Como uma proteína, ela se associa a alguma parte primitiva no homem e secreta um hormônio sedutor, quase hipnótico. O sinal é transduzido e, em pouco tempo, todas as células, adjacentes ou distantes, movem-se em direção ao sofrimento.
Purple Spiral
quarta-feira, 5 de abril de 2023
O lugar onde as ondas morrem
Quarta-feira
Sou dramática e desequilibrada. É isso. Tenho que aceitar a minha dramaticidade e desequilíbrio.
E tem mais, sou também emocionada. Choro quando os amantes me deixam. Choro quando me esquecem. Choro quando aparecem engalfinhados em outros amores.
Abomino o frio e o taciturno e as mensagens antiinflamatórias - de 8 em 8 horas.
Não ousaria dizê-lo em voz alta, mas quero dengo, chamego e cafuné. Não confesso porque para essa geração não existe crime maior do que o apego. Tenho medo de terminar de trás de grades, vestindo um tenebroso macacão laranja, condenada a dançar o thriller para o YouTube.
Gosto também de uma boa briga - porque sou desequilibrada. E exijo dos meus amores que briguem de volta. Que pelejem comigo esse bom combate. Só para viver as delícias das pazes mais tarde. Só para viver em paz pós conflito.
Como De Gaulle, eleito após a guerra dos paralelepípedos.
Sou dramática e desequilibrada e, por muito tempo, tive vergonha de sê-lo. Era como quem tem 3 mamilos e mantém o extra escondido com medo de ser vendido ao circo para o riso do público.
Mas que público é esse, eu pergunto? Que público é esse cujo julgamento pode sepultar um ser vivo?
O público do ansiolítico, dos vícios, da solidão, dos ataques de pânico, do amor incondicional dos cachorros, da falta de habilidades sociais, do ódio ao gênero oposto, do golpe no amor, do golpe sem amor, do vazio existencial, da falta de identidade, da dor sem palavras.
E diante da inadequação do próprio público, como Nelson Rodrigues abraçando a velhice ante a vergonha da nudez sem amor, dispo-me de vergonha, corro e agarro pelos ombros os sentimentos que carrego, abraço apertado, peço desculpas por tê-los rejeitado e os levo ao cinema.
Quarta feira o ingresso é mais barato.
quarta-feira, 6 de março de 2019
O homem sem Deus - 1
sexta-feira, 23 de setembro de 2016
A mulher ideal
Um homem e uma mulher estão sentados em uma mesa de um restaurante fino. Esse é o primeiro encontro deles. O jantar foi um sucesso. O homem segura a mão da mulher por sobre a mesa e o seguinte diálogo se segue:
- Você quer esticar essa noite na minha casa com um bom vinho?
Segue-se o silêncio. A sociedade fica apreensiva.
- Bom, até me sinto tentada a aceitar essa oferta sensacional, mas terei de declinar (A sociedade respira aliviada). A verdade é que se formos para a sua casa em algum momento você tentará fazer sexo comigo (A sociedade concorda. Uma senhora diz em tom condescendente "Homem, né. Muita testosterona.").
Apesar de ter ouvido por toda a vida que uma dama não deve dar no primeiro encontro, sendo de carne e osso assim como você - Pasme! - eu poderia ceder a tentação. Você já leu bulas e embalagens de métodos contraceptivos? Nenhum é 100% eficaz. Isso mesmo! Todos podem falhar. Então existiria uma chance, ainda que diminuta, deu sair grávida dessa noite.
Bom, tão logo eu descobrisse te ligaria. Você diria que não é problema seu, que dei porque quis ("Não pode ver pinto! - Vocifera a sociedade!). E me perguntaria como pode ter certeza de ter sido o único já que obviamente tenho o hábito de fazer sexo na primeira noite com qualquer um. ("Libertina!!! - Alguém grita do meio da sociedade).
Iria mandar eu dar meus pulos o que me deixaria com apenas três nada agradáveis opções:
Poderia manter a criança sozinha (A sociedade cochicha e a olha de soslaio: "Mãe solteira... E tão nova".), poderia dar o bebê para adoção porque ter filhos não é realmente o sonho da minha vida. E nesse caso eu teria de lidar com ela - Ela aponta para a sociedade que segue perplexa ("Uma mãe abandonando um filho. Onde já se viu? Eu criei 12!" - Protesta a sociedade - "Será que ela sabe o que acontece nesses abrigos? A violência, o abuso, a solidão!), ou eu poderia decidir pelo aborto (Um burburinho crescente percorre a sociedade. Do fundo vem um grito de "Vadia!", "Por que não deu para adoção?"). Nesse caso eu seria julgada por eles, por minha família e por meus amigos. Até você, que não faria qualquer questão dessa criança, me olharia de rabo de olho. Diria aos nossos conhecidos que nunca pensou que eu fosse capaz de uma brutalidade dessas e que estava inclusive disposto a pagar a pensão (A sociedade meneia a cabeça e diz "De fato um bom homem!").
Se mesmo assim eu persistisse com essa ideia teria que procurar uma clínica ilegal ou um farmacêutico sem muitos escrúpulos e seguir esses poucos tutoriais da Internet sem qualquer segurança, sem qualquer assistência.
Você sabe, esse tipo de procedimento feito de forma precária pode realmente ter consequências terríveis. Tanto físicas quanto psicológicas. Então, estatisticamente falando, haveria grandes chances de dar errado, eu iria parar num hospital, diria ao médico que se tratava de uma tentativa de aborto forçada, ele me trataria mal e todos os enfermeiros com ele (Realmente um monstro! Como ela pôde? O próprio filho! Um bebê indefeso!)
Passaria a ver todos os homens como abandonadores em potencial. Tornaria-me agressiva. Começaria a ver um padrão patriarcal em todos os lugares e assuntos. Em forma de rebeldia, como um grito ineficaz de alforria pararia de fazer o que os outros esperam de mim. Nada de maquiagem, nada de depilação ("Feminista suja!". "Isso é falta de rola!" - A sociedade ri.)
Ao contrário - Ela diz enquanto toma um gole de sua bebida - O problema aqui é o excesso.
Como você pode ver é uma tragédia anunciada.
Fico grata pelo jantar. Estava tudo delicioso. - Ela levanta,pega a bolsa e o casaco do encosto da cadeira. - Não estarei esperando você ligar, é claro. Li todos os manuais de como entender os homens e sei que está no script essa sumida pós encontro. - Ela se vira e sai do restaurante.
(A sociedade se encara com cara de quem não entendeu nada: "Que conservadora! Hoje em dia as mulheres são livres para fazer o que bem entendem. Devia ter dado logo!", "Antiquada!"... - De repente um grito do meio da sociedade - "Pessoal, olha ali! - Todos os olhos se voltam numa mesma direção! - Aquele cara ali acabou de dizer ser cristão! - "Ignorante!", "Preconceituoso!!!, "Vamos lá ver de perto!", "Não se preocupem, eu sou estudioso, vou humilhá-lo usando de ciência pura e simples!", "Vamos!!!)
Encerra a cena.
