quarta-feira, 5 de abril de 2023

O lugar onde as ondas morrem

Tragédia. A tragédia tem seu apelo, não podemos negar. Como uma proteína, ela se associa a alguma parte primitiva no homem e secreta um hormônio sedutor, quase hipnótico. O sinal é transduzido e, em pouco tempo, todas as células, adjacentes ou distantes, movem-se em direção ao sofrimento.  

Cansamos muito rapidamente dos relatos de felicidade, até nos ressentimos deles em certa medida, mas para a tragédia sempre há espaço, ouvido e atenção. 


Somos assim há muitos anos. Das feirinhas em dias de execução nas praças públicas aos jornais que jorram sangue na hora do jantar em família. Os "homens maus realmente fazem o que os homens bons sonham." 

Algumas pessoas se perguntam o motivo de nosso comportamento irracional, criam várias teorias estapafúrdias e são capazes, inclusive, de se inocentarem dessa culpa, dizendo em alto e bom som que não compactuam desse mal endemico. 

Alheias, é claro, a própria maldade, sufocam nas profundezas do subconsciente um grande dragão. 
Na verdade, a literatura antiga, a neurociência e a psicanálise já tem metade, senão todo esse quebra-cabeças montado. Todos temos traços de psicopatia, o que nos impede de sair por aí cortando as cabeças de nossas mães, é a empatia  - e às vezes nem é empatia pela mãe, mas sim por nós mesmos. Todos somos compostos de átomos, moléculas, tecidos, organismos, sistemas e aquela maldade instrínseca ao IDE que o alterego arrancou à base da chinelada e do castigo de joelho no milho. 

Quantas pessoas você matou ao longo da sua vida? Não digo com as suas próprias mãos, mas em sua cabeça. Quantas você chicoteou, quantas você quis ver tropeçando e caindo? Quantas vezes, quando os seus pais o colocavam de castigo, você pensava em vingança? Amamos a tragédia porque somos nós também tragédia.

Não vejo defeito nisso. Eu concordo com aquela máxima Petersoneana: só quem é um monstro e controla esses aspectos voluntariamente pode ser realmente bom. Animais indefesos são perigosos, homens indefesos são homicidas. 

E como se dão as tragédias nesse mundo? Quando começaram e por onde adentraram na aparente ordem na qual nos organizamos, primeiro como células, depois como comunidades?

Alguns dirão que tudo começou em um jardim num dia ensolarado, quando a rebelião deu à luz a lógica e a morte.  Outros dirão que foi em uma grande explosão que trouxe a ordem temporária as coisas ao preço de embutir em seu DNA a sua degradação inevitável.

Porque morremos há tragédia e não existe grande tragédia sem ao menos uma morte. 

É um discurso duro, eu sei, ou apenas dramático, mas me pareceu a introdução correta ao meu infortúnio pessoal. Enquanto muitos dirão que a tragédia é uma evento aleatório e outros ainda dirão que é o resultado dos nossos maus atos, eu digo que a tragédia é resultado da minha felicidade. É isso mesmo. Se eu fico feliz, alguma tragédia acontece. 

Primeiro pensei haver mera correlação entre essas variáveis, depois confirmei a causalidade dos eventos. Se eu sorrisse tão logo tropeçava, se eu tivesse um bom dia hoje, no seguinte amanheceria doente. 
A todas as entradas felizes do meu diário seguem-se pequenos incidentes, medianas misérias e grandes tristezas. 

Não demorou muito para que eu começasse a ser consumido por um terrível medo da felicidade. Após cada sorriso eu sempre esperava, no mínimo, ser cagado por um pombo bem no meio do olho ou ainda ser atingido por um raio. 

Vociferei incontáveis vezes contra o céu e a estatística por minha pífia existência. Me senti o mais miserável entre os homens; quão desafortunado esse amontoado de átomos com infinitas possibilidades se tornou. Feynman, você estava errado! 


O pavor da tragédia iminente me tornou um "pobre melancólico que acha que a felicidade é muito barulhenta e cheia de gente". Fugi dos sorrisos, dos amores e dos conflitos que poderiam resolver problemas e trazer serenidade a vida como o diabo foge dos gritos do Silas Malafaia.  Nenhum segundo de prazer compensa a dor aleatória que, inevitavelmente, o segue. 

 
Isolei-me, por fim, num apartamento confortável no centro da cidade. Daqui ouço a gargalhada dos ébrios, a volúpia das vozes femininas, o gemido das cuícas e os tilintar das taças de cerveja. É aqui onde ondas sonoras vêm morrer. Também é aqui que choro incontáveis lágrimas amargas após horas assistindo vídeos de cantores ruins em programas de calouros. É daqui que não posso sair para que meu futuro não seja como o meu passado. É aqui que todos os dias eu morro um pouco. É aqui que existe paz.

Quarta-feira

 Sou dramática e desequilibrada. É isso. Tenho que aceitar a minha dramaticidade e desequilíbrio. 

E tem mais, sou também emocionada. Choro quando os amantes me deixam. Choro quando me esquecem. Choro quando aparecem engalfinhados em outros amores.

Abomino o frio e o taciturno e as mensagens antiinflamatórias - de 8 em 8 horas. 

Não ousaria dizê-lo em voz alta, mas quero dengo, chamego e cafuné. Não confesso porque para essa geração não existe crime maior do que o apego. Tenho medo de terminar de trás de grades, vestindo um tenebroso macacão laranja, condenada a dançar o thriller para o YouTube. 

Gosto também de uma boa briga - porque sou desequilibrada. E exijo dos meus amores que briguem de volta. Que pelejem comigo esse bom combate. Só para viver as delícias das pazes mais tarde. Só para viver em paz pós conflito. 

Como De Gaulle, eleito após a guerra dos paralelepípedos. 

Sou dramática e desequilibrada e, por muito tempo, tive vergonha de sê-lo. Era como quem tem 3 mamilos e mantém o extra escondido com medo de ser vendido ao circo para o riso do público. 

Mas que público é esse, eu pergunto? Que público é esse cujo julgamento pode sepultar um ser vivo?

O público do ansiolítico, dos vícios, da solidão, dos ataques de pânico, do amor incondicional dos cachorros, da falta de habilidades sociais, do ódio ao gênero oposto, do golpe no amor, do golpe sem amor, do vazio existencial, da falta de identidade, da dor sem palavras. 

E diante da inadequação do próprio público, como Nelson Rodrigues abraçando a velhice ante a vergonha da nudez sem amor, dispo-me de vergonha, corro e agarro pelos ombros os sentimentos que carrego, abraço apertado, peço desculpas por tê-los rejeitado e os levo ao cinema.


Quarta feira o ingresso é mais barato.


quarta-feira, 6 de março de 2019

O homem sem Deus - 1


O HOMEM SEM DEUS

Eu queria não ser a pessoa a contar essa história, mas ele estava certo, se passamos muito tempo olhando para o abismo, grandes são as chances de que terminemos dentro dele voluntariamente. Eu mergulhei irremediavelmente nesta escuridão. Somos agora um só. E não há desespero, angústia ou morte que possam me salvar desta terrível maldição.
Talvez fosse melhor para o mundo enterrar essa biografia. A história dele, o homem sem Deus. Mas o que eu recebi eu lhes dou. Não por amor de vocês, como os apóstolos faziam, mas porque quero que vocês sofram como eu sofri.

CAPÍTULO  1 - O CONTRATO

                 
      Quando eu o vi a primeira vez ele parecia transtornado. Os olhos coléricos de um tom amarelado. A feição rígida. Ódio. Ele era todo ódio.
    Adentrou a minha cela como um furacão. Um homem enorme, que alcançava facilmente dois metros de altura. Musculoso. Pálido. Transtornado. A porta bateu com um estrondo contra a parede chapiscada.

- Você vai escrever! - Ele vociferou. - Contará a minha história. A história do negligenciado. Começaremos amanhã. - Até aquele presente momento ele falava sem me olhar, dando passos pesados e apressados no quartinho apertado. Misturadas às frases em português outras, que pareciam em línguas estrangeiras, murmuradas. Então ele parou e os olhos de um faiscar estranho miraram os meus; o ódio, antes espalhado por todos os lados, agora direcionados exclusivamente a mim. - E se você se recusar a fazê-lo, eu prestarei uma visita nada respeitável a Sofia e Marta. Você terá de retirar seus restos mortais do chão com uma pá. - E saiu.

    Eu não o veria novamente pela próxima semana.  De alguma forma sempre havia água e comida no quartinho. Durante as horas do dia uma janela pequena no canto superior da parede permitia um feixe de luz se derramar timidamente no aposento. À noite era escuro como breu. Eu não ouvia nada lá fora. Nem carros, nem pessoas, nem pássaros. O silêncio era, na maior parte do tempo, ensurdecedor e a falta de atividade me permitia pensar quase que exclusivamente no destino da minha família.

     Permanecia a maior parte do tempo sentado no que era minha cama. Uma estrutura feita de tijolos, coberta por um fino colchão e um lençol surrado. Com os braços abraçando as pernas, olhava para a porta de madeira pesada ansiando que alguém aparecesse. 
    Alguns dias eu esperei pela polícia. Pela manhã ansiava que Marta percebesse a loucura do meu desaparecimento e procurasse ajuda da lei. Ao entardecer eu dava a morte de minha esposa como certa e chorava como um bebê. Noutros já não importava quem fosse a visita, até mesmo ele, o meu sequestrador. Até mesmo a sua aparição me roubaria da loucura em que eu parecia me afogar.

       No sétimo dia ele regressou. Parecia outro. Trouxe consigo uma cadeira que posicionou no centro do quartinho, de frente para onde eu estava sentado. Ao seu ele  lado ele depositou cuidadosamente um saco de pano escuro, amarrado com um barbante sujo. Ele sorria, e seu sorriso parecia mais impiedoso do que sua cólera.

- Você já está pronto?
- Pronto para o que? - Perguntei receoso.
- Para escrever a minha história.
- Eu não...

     Eu ainda não havia terminado quando de dentro do saco ele tirou o que eu reconheci como o senhor bigodes. Uma pelúcia que eu dera a minha filha Sofia.

- Oh, não faça essa cara de pavor. É apenas para boa sorte. Sofia deseja que seu novo trabalho seja bem sucedido. O senhor bigodes está aqui para lhe auxiliar. - Ele sorriu ao jogar a pelúcia no único ponto de luz do chão escuro. - Posso ver finalmente a boa vontade para com meu projeto fluindo em suas veias. Amanhã lhe trarei folhas e canetas. Quando eu estiver satisfeito com o resultado de nossa pesquisa você será libertado e sua família poupada. Se Deus estiver ao seu favor vocês poderão até mesmo voltar a serem felizes. - O sorriso cresceu.

- Como posso saber que minha esposa e filha estão bem? Você pode muito bem tê-las matado... Preciso falar com elas! - Disse num tom um pouco mais elevado do que o planejado. E ao ver seu sorriso desvanecer arrependi-me amargamente, achando ter selado, naquele momento, o destino de minhas meninas.

- Se estiverem mortas o que você poderá fazer? - Ele fez uma pausa na qual permaneceu um longo minuto sem piscar olhando-me no fundo dos olhos, os quais ele encontrou facilmente, ainda que minha cabeça estivesse mergulhada na escuridão do quarto mal iluminado. - Mas se estiverem vivas e morrerem por causa do seu mau comportamento, você poderá viver com a culpa? Poderá andar livremente sobre a face dessa Terra se souber que se somente tivesse escrito algumas poucas linhas para um amigo em potencial poderia ter poupado a vida de quem mais ama? - Ele se levantou e caminhou em direção à porta para partir.

- Por favor não me deixe aqui. - Implorei. O pavor sobrepujando o bom censo. - O silêncio, o escuro, acho que não resistirei muito mais tempo. Prenda-me em outro lugar!

- Infelizmente para você a escuridão e o silêncio não o matarão. Elas adentrarão a sua alma. Comerão vagarosamente os seus melhores sentimentos. Depois a sua esperança. E por fim a sua sanidade. Restarão desespero e torpor. Alternando-se. Misturando-se. Considere seus dias aqui como uma pesquisa de campo. - Ele voltou a se afastar e já fora da sala, antes que a infernal porta de madeira se fechasse novamente, pude ouvi-lo dizer. - "The worst is yet to come".

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A mulher ideal



Cena:

Um homem e uma mulher estão sentados em uma mesa de um restaurante fino. Esse é o primeiro encontro deles. O jantar foi um sucesso. O homem segura a mão da mulher por sobre a mesa e o seguinte diálogo se segue:

- Você quer esticar essa noite na minha casa com um bom vinho?

Segue-se o silêncio. A sociedade fica apreensiva.

- Bom, até me sinto tentada a aceitar essa oferta sensacional, mas terei de declinar (A sociedade respira aliviada). A verdade é que se formos para a sua casa em algum momento você tentará fazer sexo comigo (A sociedade concorda. Uma senhora diz em tom condescendente "Homem, né. Muita testosterona.").
Apesar de ter ouvido por toda a vida que uma dama não deve dar no primeiro encontro, sendo de carne e osso assim como você - Pasme! - eu poderia ceder a tentação. Você já leu bulas e embalagens de métodos contraceptivos? Nenhum é 100% eficaz. Isso mesmo! Todos podem falhar. Então existiria uma chance, ainda que diminuta, deu sair grávida dessa noite.
Bom, tão logo eu descobrisse te ligaria. Você diria que não é problema seu, que dei porque quis ("Não pode ver pinto! - Vocifera a sociedade!). E me perguntaria como pode ter certeza de ter sido o único já que obviamente tenho o hábito de fazer sexo na primeira noite com qualquer um. ("Libertina!!! - Alguém grita do meio da sociedade).
Iria mandar eu dar meus pulos o que me deixaria com apenas três nada agradáveis opções:
Poderia manter a criança sozinha (A sociedade cochicha e a olha de soslaio: "Mãe solteira... E tão nova".), poderia dar o bebê para adoção porque ter filhos não é realmente o sonho da minha vida. E nesse caso eu teria de lidar com ela - Ela aponta para a sociedade que segue perplexa ("Uma mãe abandonando um filho. Onde já se viu? Eu criei 12!" - Protesta a sociedade - "Será que ela sabe o que acontece nesses abrigos? A violência, o abuso, a solidão!), ou eu poderia decidir pelo aborto (Um burburinho crescente percorre a sociedade. Do fundo vem um grito de "Vadia!", "Por que não deu para adoção?"). Nesse caso eu seria julgada por eles, por minha família e por meus amigos. Até você, que não faria qualquer questão dessa criança, me olharia de rabo de olho. Diria aos nossos conhecidos que nunca pensou que eu fosse capaz de uma brutalidade dessas e que estava inclusive disposto a pagar a pensão (A sociedade meneia a cabeça e diz "De fato um bom homem!").
Se mesmo assim eu persistisse com essa ideia teria que procurar uma clínica ilegal ou um farmacêutico sem muitos escrúpulos e seguir esses poucos tutoriais da Internet sem qualquer segurança, sem qualquer assistência.
Você sabe, esse tipo de procedimento feito de forma precária pode realmente ter consequências terríveis. Tanto físicas quanto psicológicas. Então, estatisticamente falando, haveria grandes chances de dar errado, eu iria parar num hospital, diria ao médico que se tratava de uma tentativa de aborto forçada, ele me trataria mal e todos os enfermeiros com ele (Realmente um monstro! Como ela pôde? O próprio filho! Um bebê indefeso!)
Depois de algum tratamento severo, muito sofrimento e alguma sorte eu sobreviveria a todo esse processo de aborto/cura. Após processada e quem sabe até presa e molestada por alguma presa, voltaria ao convívio da sociedade, desiludida e amargurada.
Passaria a ver todos os homens como abandonadores em potencial. Tornaria-me agressiva. Começaria a ver um padrão patriarcal em todos os lugares e assuntos. Em forma de rebeldia, como um grito ineficaz de alforria pararia de fazer o que os outros esperam de mim. Nada de maquiagem, nada de depilação ("Feminista suja!". "Isso é falta de rola!" - A sociedade ri.)
Ao contrário - Ela diz enquanto toma um gole de sua bebida - O problema aqui é o excesso.
Como você pode ver é uma tragédia anunciada.
Fico grata pelo jantar. Estava tudo delicioso. - Ela levanta,pega a bolsa e o casaco do encosto da cadeira. - Não estarei esperando você ligar, é claro. Li todos os manuais de como entender os homens e sei que está no script essa sumida pós encontro. - Ela se vira e sai do restaurante.

(A sociedade se encara com cara de quem não entendeu nada: "Que conservadora! Hoje em dia as mulheres são livres para fazer o que bem entendem. Devia ter dado logo!", "Antiquada!"... - De repente um grito do meio da sociedade - "Pessoal, olha ali! - Todos os olhos se voltam numa mesma direção! - Aquele cara ali acabou de dizer ser cristão! - "Ignorante!", "Preconceituoso!!!, "Vamos lá ver de perto!", "Não se preocupem, eu sou estudioso, vou humilhá-lo usando de ciência pura e simples!", "Vamos!!!)


Encerra a cena.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

O silêncio dos céus

Eu já sofri alguma coisa na vida.
Bullying na escola, rejeição amorosa [pasmem!], humilhação, abandono, solidão, medo, mas nada se compara ao silêncio sepulcral de Deus.
A cultura popular diz que Ele está sempre lá pronto para ajudar, desesperado, carente de atenção, mas a verdade é que Deus não é bichinho de estimação, Ele é o Leão, e como todo Leão Ele faz exatamente aquilo que tem vontade de fazer, a hora que quer fazer, sem jamais se submeter a vontade humana. Isso significa que às vezes Ele se afasta, e às vezes faz silêncio.
Agora veja bem. Já é difícil suportar o silêncio humano. Da mãe brava, do amante indeciso, do entrevistador daquele lugar legal em que você tem vontade de trabalhar, do professor que não divulga logo a nota... Imagine ter de lidar com o desaparecimento voluntário do seu criador. 
O sentimento de abandono é indescritível. 
A vida como que fica suspensa. O ar imóvel. E você chora, implora, faz birra, fica com raiva, jura ir embora e nunca mais voltar, volta, implora, chora, faz birra, tudo isso numa tentativa pífia de chamar atenção dEle. 
Porque, né, se Ele pelo menos tossisse. 
É quando você tem que lidar com a ausência de Deus que você percebe como a presença dEle é importante.
Você sabe agora que se tivesse a certeza da companhia dEle poderia sofrer a sua dor e quem sabe até a dor dos outros e ainda assim rolaria esperança, alegria em meio a lágrimas e o "sentar e esperar o próximo por do sol". 
Mas assim sozinho, qualquer formiga te faz tropeçar, qualquer cara feia te faz desmanchar, qualquer lembrança daquele passado distante te faz desejar não ter nascido. 
Para onde correr quando os céus parecem fechados?
Nos braços de quem se abrigar?
Por quem chamar? A quem pedir socorro?
Esse tormento, amigo, nem Televisa e sua Maria do Bairro conseguem barrar. 

sábado, 23 de janeiro de 2016

O cliente

O cliente A entra na loja de supetão. Está esbaforido e a pele brilha de tanto suor. Marcas escuras se formam na camisa cinza sob as axilas. Ele cheira a perfume forte e cigarro. Traz nas mãos de unhas roídas e sujas duas caixas  abertas. O vendedor dá uma olhadinha para o monitor e confere a hora. Sim, quase hora do almoço, ele sorri e: 

Horário 11: 10 

Cliente - Boa tarde! Será que você pode me ajudar? - A voz brada como um trovão, super alta. - Eu comprei esse presente, tá vendo aqui, essa é a nota, vou ler pra você, me acompanha. Loja X, Rua Y, Número 1987, Rio de Janeiro, Bairro Tal. - Ele olha para o vendedor - É essa a loja? Sim? - Então, eu comprei na Loja X, Rua Y, Número 1987, Rio de Janeiro, Bairro Tal, um presente, certo? - E continua lendo - Vou prosseguir, espera um pouquinho. O nome do comprador , Sicrano da Silva, esse sou eu, quer ver a identidade? Não?  Melhor mostrar a identidade. Para ficar tudo certo, né? - Ele revira uma bolsa velha cheia de papel em busca da identidade. - Olha aqui. Vou ler para você.  Válida-em-todo-território-nacional. Quer dizer que é verdadeira, entende? Válida-em-todo-território-nacional, Registro Geral: 11.092.001-2, Data de expedição: 13/07/1982. Nome: Sicrano da Silva - Que sou eu - Filiação: Dona Fulana e Seu coisa. Esses são meus pais. Naturalidade: Rio de Janeiro. Foi onde eu nasci. Data de nascimento:  24/04/1964.  O cpf não tem, mas eu tenho o cartão se você precisar. Não precisa? Tudo bem. Então anota aí, eu, Sicrano da Silva, comprei na Loja X, Rua Y, Número 1987, Rio de Janeiro, Bairro Tal, que é essa loja aqui, não é isso? Comprei nessa loja um presente. Que eu trouxe aqui. Olha. - Ele entrega a caixa na mão do vendedor. - Eu comprei esse presente pela internet, mas nessa loja, entende? Tá aqui na nota. Vou ler pra você. Loja X, Rua Y, Número 1987, Rio de Janeiro, Bairro Tal. Destinatário: Sicrano da Silva, eu,  meu Endereço: Rua da Tragédia, Número 2424, CPF - Aqui tá o CPF, informação importante - Espera, você não está me ouvindo, vou recomeçar - Eu, Sicrano da Silva, comprei aqui, nessa loja, Loja X, um presente pela Internet que eu te mostrei, cadê o presente? Ai, meu Deus, cadê o presente?? - Ele vasculha a bolsa - Me ajuda, pelo amor de Deus, eu estou ficando louco! - Aqui o presente! Eu comprei esse presente na Loja X, Rua Y, Número 1987, Rio de Janeiro, Bairro Tal, certo? Você está entendendo?
Mas essa semana, na quarta feira, chegou essa outra caixa e dentro o mesmo presente. Agora, se você olhar aqui na minha nota vai ver que comprei um único presente desses. Olha aqui. Cadê? - Ele começa a ler baixinho as informações da nota em busca do que quer mostrar ao vendedor - Aqui! - Ele aponta - Quantidade, ou seja, o número de presentes requisitados, é 1. Numeral um. Tá vendo?
Mas aí, na quarta-feira, eu recebi outra caixa igual com o mesmo presente. Um presente que eu comprei nessa loja X, rua Y, mas pela internet, com essa nota aqui. Como devo proceder?
Eu podia ter resolvido pela Internet? Mas pela Internet acho complicado. Vocês poderiam não entender a situação ou achar que eu estava mentindo. Ao vivo é mais seguro. Eu posso mostrar a nota. Cadê a nota? - Ele revira uns papéis na bolsa. - Cadê a nota, garoto? Ai, meu Deus! - O vendedor aponta para a nota em cima da mesa. - Ah, aqui... Ele passa o dedo de cima para baixo em todas as informações da nota. Olha, um único presente e eu recebi dois. 
O que eu faço?
Hum... Tá. Espera. - O cliente saca um papel em branco amassado do bolso e pega uma caneta de cima da mesa do vendedor. - Pode falar. Enviar e-mail para o sac da loja. - Ele começa a repetir tudo o que o vendedor diz enquanto anota as informações no papel que tem no colo - E como eu acho esse Sac? Qual é o site da loja? www.lojax.com.br. Depois eu clico em Sac. Então esse Sac está disponível no site da loja? Se eu entrar lá vou ver esse Sac? Aí eu clico no Sac e resolvo meu problema? Então vamos ver. Eu vou entrar no site da loja que é www.lojax.com.br, vou procurar pela palavra SAC, o que significa Sac? Serviço, peraí, você está falando muito rápido, Serviço de Atendimento ao Cliente. Então eu entro no site e clico no Serviço de Atendimento ao Cliente. E depois? Hum? Entro em contato com vocês. Usando o e-mail disponível no SAC. O SAC que eu encontro acessando o site da loja. Okay. No e-mail, espera aí, 2! - Ele coloca um número dois ao lado da segunda linha escrita, para ordenar as informações - 2. Explico meu problema no e-mail. Que eu recebi dois presentes quando comprei apenas um. Que está naquela nota que eu te mostrei. Cadê a nota? Aqui. Nessa nota, que diz que comprei um presente na Loja X, Rua Y, Número 1987, Rio de Janeiro, Bairro Tal. Quantidade 1. E aí está resolvido.
Eu levo o presente aos correios e ele será enviado de volta a vocês. E aí? Acabou o problema! Está tudo resolvido? É isso? É isso. Certo.
Então se eu for ao Correio e levar o presente eles o receberão e enviarão de volta a Loja X? Eu só preciso entrar no site da Loja que é - Ele olha para o papel em busca da informação - que é, www.lojax.com.br, procurar por SAC - Serviço de Atendimento ao Cliente - mandar um e-mail para vocês e entregar o presente para o Correio. Aí está tudo resolvido! Porque vocês já vão ter aprovado o reenvio. O reenvio já vai ter sido aprovado? Então eu posso entrar no site e reenviar.
Qual o seu nome mesmo? - Vou anotar aqui. BEL-TRA-NO. Com um ou dois L? Okay. Então, Beltrano, com um L só, vendedor da Loja X, Rua Y, Número 1987, Rio de Janeiro, Bairro Tal, na qual comprei um único presente e recebi dois, me atendeu e disse que posso resolver meu problema acessando o site - Não me diz! - é... www, ponto, loja X, ponto, br.. Não? Não!!! Br não, ponto, com, ponto, Br, depois clicando em SAC, que significa Serviço de Atendimento ao Cliente, enviando e-mail explicativo sobre meu problema, 3) e entregando a caixa nova aos Correios para que seja reenviada a loja. E está tudo certo!
Você é um anjo!!! - Então quando eu for ao Correio o reenvio já vai ter sido aprovado? Eu só preciso levar a caixa. E o número de serviço inverso... Você não tinha me dito isso!
Então, depois de acessar ao site da Loja que é, www, ponto, Loja X, ponto, com, ponto, Br, eu vou clicar em Serviço de Atendimento ao Cliente, SAC, enviar um e-mail para a Loja X explicando que comprei um presente, esse aqui - Ele pega a caixa aberta - e recebi dois, anoto o número de entrega reversa, vou ao correio, levo o presente, eles enviam de volta para a loja e está tudo resolvido. 
Não pago o segundo presente porque comprei apenas um e avisei vocês, da Loja X que recebi dois, quando comprei um, que é o que diz na nota, essa nota aqui. Certo? Certo.
Muito obrigado, viu. - Ele segura a mão do vendedor e balança com veemência. - Quero pagar seu almoço. Não posso pagar seu almoço? Então eu te dou vinte reais e você compra um doce. Não posso te pagar um doce cacete??? Não precisa? Porque é seu trabalho. Tudo bem. Obrigado de novo.

O cliente então se levanta, enfia as caixas de papelão na bolsa e anda até a saída conferindo suas anotações enquanto as repete baixinho. Já à porta ele olha para trás e faz menção de retornar para fazer mais alguma pergunta. O vendedor desesperado começa a sentir palpitações, tremedeira e boca seca. Nesse minuto, que mais pareceu uma eternidade, ele foi capaz de fazer promessas a todos os santos que conhecia. Se nunca mais visse aquele homem dedicaria toda a sua vida a venda de produtos Jequiti em Jericoacoara. E embora tivesse muita fé, decidiu não tentar o divino e pediu demissão naquela mesma tarde. Nunca mais foi visto, nem mesmo quando convidado a participar do Programa Roda a Roda Jequiti.

Horário: 12:10