O HOMEM SEM DEUS
Eu queria não ser a pessoa a contar essa história, mas ele estava
certo, se passamos muito tempo olhando para o abismo, grandes são as chances de
que terminemos dentro dele voluntariamente. Eu mergulhei irremediavelmente
nesta escuridão. Somos agora um só. E não há desespero, angústia ou morte que
possam me salvar desta terrível maldição.
Talvez fosse melhor para o mundo enterrar essa biografia. A história
dele, o homem sem Deus. Mas o que eu recebi eu lhes dou. Não por amor de vocês,
como os apóstolos faziam, mas porque quero que vocês sofram como eu sofri.
CAPÍTULO 1 - O
CONTRATO
Quando
eu o vi a primeira vez ele parecia transtornado. Os olhos coléricos de um tom
amarelado. A feição rígida. Ódio. Ele era todo ódio.
Adentrou
a minha cela como um furacão. Um homem enorme, que alcançava facilmente dois
metros de altura. Musculoso. Pálido. Transtornado. A porta bateu com um
estrondo contra a parede chapiscada.
- Você vai escrever! - Ele
vociferou. - Contará a minha história. A história do negligenciado. Começaremos
amanhã. - Até aquele presente momento ele falava sem me olhar, dando passos
pesados e apressados no quartinho apertado. Misturadas às frases em português
outras, que pareciam em línguas estrangeiras, murmuradas. Então ele
parou e os olhos de um faiscar estranho miraram os meus; o ódio, antes
espalhado por todos os lados, agora direcionados exclusivamente a mim. - E se
você se recusar a fazê-lo, eu prestarei uma visita nada respeitável a Sofia e
Marta. Você terá de retirar seus restos mortais do chão com uma pá. - E saiu.
Eu não o veria novamente pela
próxima semana. De alguma forma sempre
havia água e comida no quartinho. Durante as horas do dia uma janela pequena no
canto superior da parede permitia um feixe de luz se derramar timidamente no
aposento. À noite era escuro como breu. Eu não ouvia nada lá fora. Nem carros,
nem pessoas, nem pássaros. O silêncio era, na maior parte do tempo,
ensurdecedor e a falta de atividade me permitia pensar quase que exclusivamente
no destino da minha família.
Permanecia a maior parte do tempo
sentado no que era minha cama. Uma estrutura feita de tijolos, coberta por um
fino colchão e um lençol surrado. Com os braços abraçando as pernas, olhava
para a porta de madeira pesada ansiando que alguém aparecesse.
Alguns dias eu
esperei pela polícia. Pela manhã ansiava que Marta percebesse a loucura do meu
desaparecimento e procurasse ajuda da lei. Ao entardecer eu dava a morte de
minha esposa como certa e chorava como um bebê. Noutros já não importava quem
fosse a visita, até mesmo ele, o meu sequestrador. Até mesmo a sua aparição me
roubaria da loucura em que eu parecia me afogar.
No sétimo dia ele regressou.
Parecia outro. Trouxe consigo uma cadeira que posicionou no centro do
quartinho, de frente para onde eu estava sentado. Ao seu ele lado ele depositou cuidadosamente um saco de
pano escuro, amarrado com um barbante sujo. Ele sorria, e seu sorriso parecia
mais impiedoso do que sua cólera.
- Você já está pronto?
- Pronto para o que? - Perguntei
receoso.
- Para escrever a minha história.
- Eu não...
Eu ainda não havia terminado
quando de dentro do saco ele tirou o que eu reconheci como o senhor bigodes.
Uma pelúcia que eu dera a minha filha Sofia.
- Oh, não faça essa cara de
pavor. É apenas para boa sorte. Sofia deseja que seu novo trabalho seja bem
sucedido. O senhor bigodes está aqui para lhe auxiliar. - Ele sorriu ao jogar a
pelúcia no único ponto de luz do chão escuro. - Posso ver finalmente a boa
vontade para com meu projeto fluindo em suas veias. Amanhã lhe trarei folhas e
canetas. Quando eu estiver satisfeito com o resultado de nossa pesquisa você
será libertado e sua família poupada. Se Deus estiver ao seu favor vocês
poderão até mesmo voltar a serem felizes. - O sorriso cresceu.
- Como posso saber que minha
esposa e filha estão bem? Você pode muito bem tê-las matado... Preciso falar
com elas! - Disse num tom um pouco mais elevado do que o planejado. E ao ver
seu sorriso desvanecer arrependi-me amargamente, achando ter selado, naquele
momento, o destino de minhas meninas.
- Se estiverem mortas o que você
poderá fazer? - Ele fez uma pausa na qual permaneceu um longo minuto sem piscar
olhando-me no fundo dos olhos, os quais ele encontrou facilmente, ainda que
minha cabeça estivesse mergulhada na escuridão do quarto mal iluminado. - Mas
se estiverem vivas e morrerem por causa do seu mau comportamento, você poderá
viver com a culpa? Poderá andar livremente sobre a face dessa Terra se souber
que se somente tivesse escrito algumas poucas linhas para um amigo em potencial
poderia ter poupado a vida de quem mais ama? - Ele se levantou e caminhou em direção à porta para partir.
- Por favor não me deixe aqui. -
Implorei. O pavor sobrepujando o bom censo. - O silêncio, o escuro, acho que
não resistirei muito mais tempo. Prenda-me em outro lugar!
- Infelizmente para você a
escuridão e o silêncio não o matarão. Elas adentrarão a sua alma. Comerão
vagarosamente os seus melhores sentimentos. Depois a sua esperança. E por fim a
sua sanidade. Restarão desespero e torpor. Alternando-se. Misturando-se. Considere
seus dias aqui como uma pesquisa de campo. - Ele voltou a se afastar e já fora
da sala, antes que a infernal porta de madeira se fechasse novamente, pude
ouvi-lo dizer. - "The worst is yet
to come".
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