quarta-feira, 6 de março de 2019

O homem sem Deus - 1


O HOMEM SEM DEUS

Eu queria não ser a pessoa a contar essa história, mas ele estava certo, se passamos muito tempo olhando para o abismo, grandes são as chances de que terminemos dentro dele voluntariamente. Eu mergulhei irremediavelmente nesta escuridão. Somos agora um só. E não há desespero, angústia ou morte que possam me salvar desta terrível maldição.
Talvez fosse melhor para o mundo enterrar essa biografia. A história dele, o homem sem Deus. Mas o que eu recebi eu lhes dou. Não por amor de vocês, como os apóstolos faziam, mas porque quero que vocês sofram como eu sofri.

CAPÍTULO  1 - O CONTRATO

                 
      Quando eu o vi a primeira vez ele parecia transtornado. Os olhos coléricos de um tom amarelado. A feição rígida. Ódio. Ele era todo ódio.
    Adentrou a minha cela como um furacão. Um homem enorme, que alcançava facilmente dois metros de altura. Musculoso. Pálido. Transtornado. A porta bateu com um estrondo contra a parede chapiscada.

- Você vai escrever! - Ele vociferou. - Contará a minha história. A história do negligenciado. Começaremos amanhã. - Até aquele presente momento ele falava sem me olhar, dando passos pesados e apressados no quartinho apertado. Misturadas às frases em português outras, que pareciam em línguas estrangeiras, murmuradas. Então ele parou e os olhos de um faiscar estranho miraram os meus; o ódio, antes espalhado por todos os lados, agora direcionados exclusivamente a mim. - E se você se recusar a fazê-lo, eu prestarei uma visita nada respeitável a Sofia e Marta. Você terá de retirar seus restos mortais do chão com uma pá. - E saiu.

    Eu não o veria novamente pela próxima semana.  De alguma forma sempre havia água e comida no quartinho. Durante as horas do dia uma janela pequena no canto superior da parede permitia um feixe de luz se derramar timidamente no aposento. À noite era escuro como breu. Eu não ouvia nada lá fora. Nem carros, nem pessoas, nem pássaros. O silêncio era, na maior parte do tempo, ensurdecedor e a falta de atividade me permitia pensar quase que exclusivamente no destino da minha família.

     Permanecia a maior parte do tempo sentado no que era minha cama. Uma estrutura feita de tijolos, coberta por um fino colchão e um lençol surrado. Com os braços abraçando as pernas, olhava para a porta de madeira pesada ansiando que alguém aparecesse. 
    Alguns dias eu esperei pela polícia. Pela manhã ansiava que Marta percebesse a loucura do meu desaparecimento e procurasse ajuda da lei. Ao entardecer eu dava a morte de minha esposa como certa e chorava como um bebê. Noutros já não importava quem fosse a visita, até mesmo ele, o meu sequestrador. Até mesmo a sua aparição me roubaria da loucura em que eu parecia me afogar.

       No sétimo dia ele regressou. Parecia outro. Trouxe consigo uma cadeira que posicionou no centro do quartinho, de frente para onde eu estava sentado. Ao seu ele  lado ele depositou cuidadosamente um saco de pano escuro, amarrado com um barbante sujo. Ele sorria, e seu sorriso parecia mais impiedoso do que sua cólera.

- Você já está pronto?
- Pronto para o que? - Perguntei receoso.
- Para escrever a minha história.
- Eu não...

     Eu ainda não havia terminado quando de dentro do saco ele tirou o que eu reconheci como o senhor bigodes. Uma pelúcia que eu dera a minha filha Sofia.

- Oh, não faça essa cara de pavor. É apenas para boa sorte. Sofia deseja que seu novo trabalho seja bem sucedido. O senhor bigodes está aqui para lhe auxiliar. - Ele sorriu ao jogar a pelúcia no único ponto de luz do chão escuro. - Posso ver finalmente a boa vontade para com meu projeto fluindo em suas veias. Amanhã lhe trarei folhas e canetas. Quando eu estiver satisfeito com o resultado de nossa pesquisa você será libertado e sua família poupada. Se Deus estiver ao seu favor vocês poderão até mesmo voltar a serem felizes. - O sorriso cresceu.

- Como posso saber que minha esposa e filha estão bem? Você pode muito bem tê-las matado... Preciso falar com elas! - Disse num tom um pouco mais elevado do que o planejado. E ao ver seu sorriso desvanecer arrependi-me amargamente, achando ter selado, naquele momento, o destino de minhas meninas.

- Se estiverem mortas o que você poderá fazer? - Ele fez uma pausa na qual permaneceu um longo minuto sem piscar olhando-me no fundo dos olhos, os quais ele encontrou facilmente, ainda que minha cabeça estivesse mergulhada na escuridão do quarto mal iluminado. - Mas se estiverem vivas e morrerem por causa do seu mau comportamento, você poderá viver com a culpa? Poderá andar livremente sobre a face dessa Terra se souber que se somente tivesse escrito algumas poucas linhas para um amigo em potencial poderia ter poupado a vida de quem mais ama? - Ele se levantou e caminhou em direção à porta para partir.

- Por favor não me deixe aqui. - Implorei. O pavor sobrepujando o bom censo. - O silêncio, o escuro, acho que não resistirei muito mais tempo. Prenda-me em outro lugar!

- Infelizmente para você a escuridão e o silêncio não o matarão. Elas adentrarão a sua alma. Comerão vagarosamente os seus melhores sentimentos. Depois a sua esperança. E por fim a sua sanidade. Restarão desespero e torpor. Alternando-se. Misturando-se. Considere seus dias aqui como uma pesquisa de campo. - Ele voltou a se afastar e já fora da sala, antes que a infernal porta de madeira se fechasse novamente, pude ouvi-lo dizer. - "The worst is yet to come".

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