domingo, 21 de julho de 2013

Come out, come out. Wherever you are...

Ando sentindo uma falta tremenda de gente interessante. De manias diferentes. Excentricidades.  De conversas que só encontramos em livros. De loucura. De doença. Falta de personalidades. De querer guardar num pote. De invejar aquele traço. Absorver aquele comportamento. Saudade de quem nem conheci...

domingo, 14 de julho de 2013

Estéril

Da hora do corvo

Esforço-me ante ao alvo fruto

Cyperua papyrus

Latim, meu latim

Das terras proibidas nos confins

Do avesso a mim

Que revoam e retorcem

Que castram e vivificam

Olhai por mim, Divino

Minhas entranhas cerebrais

Minhas ramificações neurais

Meus dedos viscerais

Fonemas inquietos

Curvas sem tangentes

Disformes dígrafos celestiais

Só fluxo e corrente

Concepções em espirais

Incendeia o corpo decadente

Liberando a alma fugaz

Carta a Rosa Maria

Querida Rosa Maria. Esposa por pura falta de opção, de tua parte, e comodismo de minha.

Sei que os recentes acontecimentos, reproduzidos um tanto alegoricamente por certos locutores de tino duvidoso, fazem-na abominar meu nome e tremer ante a simples menção de minha limitada existência. Entretanto, minha estimada gorducha adornada com glândulas sudoríparas ferozes, e diria eu, mais do que eficazes, ouve - E cometo aqui um erro quanto ao sentido que terás de usar para penetrar aos recôncavos de minha perversão. O que provavelmente não notarás porquanto mal sabes grafar o próprio nome. Motivo pelo qual  lhe desposei sendo o bucho que és, mas essa fica para a próxima missiva-, limpa os ouvidos e tenta concentrar-te em algo que não seja comestível, pois a ti, e somente a ti, ser de pouca instrução e cabalística alienação diante dos afazeres mundanos, revelarei a motivação de minha fornicação com o inominável.
Conheceis bem minha parentela. Passamos em casa de meus pais certa noite, e tenho esperanças de que estarmos a 120 Km/h não a tenhas impedido de ver a casa onde vivi e tornei-me o que sou.
O que não sabes mequetrefe, é que morei num inferno apagado, entre cinzas e fumaças.
Minha adorável mãe. Bruxa que a santa inquisição deixou escapulir por entre os dedos. Único homo sapiens com disposição para reclamar de segunda a segunda, da hora que seus meigos olhos reptílicos se abriam ao segundo em que tornavam, para felicidade geral, a se fecharem.
Grudava-se aos meus pulsos contando até mesmo as batidas de meu coração. Ao ver qualquer movimentação em direção ao banheiro, achava-se no direito, como genitora e semeadora de tão duvidoso DNA, de perguntar qual necessidade fisiológica desejava-se saciar naquela atividade. Fosse ela de natureza fecal,urinária, ou simples alívio manual.
Com os anos adquiriu o maldito hábito de rebolar naquela boca murcha, como um animal ruminante, arroz cru. Digo-vos pois que nem em África se comente tal abominação. Ao que os viventes, mesmo em vias de órgão devorando órgão para matar a perversidade da fome,esperam pacientemente ante a fogueira pelo cozimento do alimento provido pelo divino. Amém.
O som daquele cereal sendo triturado pelos dentes amarronzados da velha, as bochechas infladas pelo grande volume e a língua que vez ou outra fugia por entre os lábios para buscar um grão perdido ou salpicar o queixo com saliva me enervavam de tal forma que não podia concentrar-me em nada além da vontade de socar minha mão em sua goela.
Beijava-me e sentia como se tivesse um carrapicho na boca que me furava as bochechas e as têmporas. Sua voz era alta e parecia vinda de um cano de vaso entupido por uma massa fecal enorme. Limpava as narinas daquele nariz adunco e tucanal nas roupas íntimas. Nunca fechava a porta do banheiro, amaldiçoando o mundo com suas dobras abdominais carnudas, caídas por sobre a genitália e os pés em diagonal para dentro encerrando as canelas finas e enveiadas.
Daí para o homicídio foi um pulo, querido rabicozinho. As vítimas,todas mulheres. Pude antever em seus sorrisos afetados, no jeito como suas frontes suavam óleo de cozinha, na banha que se esparramava sobre os cós de suas calças o potencial para serem desolamento ambulante, quasares de infelicidade, mães minhas demais num planeta só.

P.S = Espero ansioso tuas páginas cheias das mais sinceras prosódias. Tente não xingar muito para não assustar teu colaborador e não chorar diante do fato de seres um fracasso na simples tarefa de escrever poucas linhas.
                                         
  Com amor, seu prestigioso marido.

Esquina.

Olhei pelo vidro do carro.
O sinal aberto e tudo indo tão rápido.
Mas ela estava ali, serena, talvez não por opção, apenas obrigação da idade.
Velhos andam devagar porque já tiveram toda a pressa de que necessitavam.
Aquele rostinho murcho.
Olhos cansados.
Eternamente trêmula.
O que se passava naquela cabeça de cabelos branquinhos.
Será que ela se lembrou do tempo em que atravessar a rua era corriqueiro?
Das muitas vezes em que se arremessou por entre carros sem hesitar?
Ou até mesmo que naquela época não existiam tantos carros?
Um ato antes tão simples se tornara um desafio.
Precisar de tanta ajuda para dar poucos passos.
Se alguém não lhe apoiar talvez nunca alcance o outro lado.
Entretanto, a boa vontade foi sepultada sob o asfalto.
Então talvez se sinta desolada demais.
E é sempre assim quando atravessa aquela rua pela manhã.
E toda vez que se levanta e lembra da rua por atravessar.
E toda noite quando vai se deitar e sabe que pela manhã haverá uma rua e a velha desolação.
A rua é a lembrança de que a morte é o futuro.
Chegar ao outro lado é transpor a última dificuldade.
Passar por horas difíceis, minutos, segundos até, é a garantia de ainda estar vivo.
Tudo para.
É hora de se apressar .
Enquanto puder atravessar,a vida está garantida.

Amme

Tudo o que tocava, murchava. Amizades e amores dilacerados, tatuados sobre a pele macia.Vivia sozinha à sombra da cerejeira que não a amava, apenas a suportava ao passar dos dias. E balançava ao vento, sem nenhuma palavra, sem nenhum aceno, apenas as flores rosinhas.
Tudo que tinha era um gato. Felino esnobe demais para ser magoado. Olhos brilhantes que assistiam a carnificina. Enquanto os corpos feridos atingiam o chão com força, o gato se esfregava em suas pernas finas. Sua única companhia.
Andavam naquele mundo isolados. Ela e o gato.E às vezes um curioso os seguia. Então sentavam ao pé da cerejeira, e de cima ela tremia. Tentando avisar o transeunte, repreendendo a coisa fria.
Tudo corria tão bem, mas ao chegar da terceira noite, o espírito que se escondia no além, esgueirando-se, aparecia, feria a alma de alguém e alimentava o gato com sardinha.
Pobre menina, ela nunca percebia. Mas quando seus olhos se anuviavam um grande desastre sobrevinha. Seus ossos cansados ardiam. Um outro estado a possuía.
Ao acordar do transe estranho. Lá estava o defunto caído. O gato lambendo os bigodes. A cerejeira chorando baixinho. O vento soprando tão calmo e o coração apenas vazio.

Script Além da imaginação – Stone

-E então Juju, conte-me o que aconteceu. – Instou a prima enquanto devorava educadamente o bolo de fubá servido por Iaiá, a empregada.
-Há muito meu marido não andava em seu juízo normal. No começo, brigava por qualquer motivo, sempre irritadiço. Depois passou a manter-se calado por longos períodos de tempo, sempre com um olhar amargo. Mexia nos livros e papéis sem nunca ler ou escrever uma nota. Resmungava baixinho pelos cantos alguma coisa sobre falar menos para manter-se a salvo. Dos sermões de domingo trazia para casa papeizinhos diversos com frases sobre pagar pelos erros cometidos na mesma intensidade que os cometera. Com o tempo, passou a trancar-se num dos quartos, aquele com uma estante grande. Passávamos a comida por uma fresta aberta rusticamente ao pé da porta. Diversas vezes protestei não poder falar com ele sem que ao menos me olhasse nos olhos. Daí permitiu que um homem entrasse e colocasse um olho mágico. Assim, dizia ele, eu teria certeza de que estaria sendo ouvida com atenção.
Implorei que me contasse o motivo de tamanho pavor da vida, mas só pôde me dizer que se convivesse com as pessoas não poderia evitar feri-las e isso lhe traria sofrimento em dobro. Certa manhã fui acordada por Iaiá. O jantar continuava à porta, negro, tantas eram as formigas. Ora, aquilo me deixou muito irritada. Entrei no aposento sem ao menos bater e para a minha surpresa, lá estava ele, duro como pedra. Virou estátua.
O doutor diz não haver pulso ou atividade cerebral. Já eu, sempre quis uma escultura na sala. – Olhou para o marido petrificado em pé próximo a porta, braços abertos e deu um sorrisinho de satisfação –Também o usamos como cabideiro.

A cena para. O locutor entra andando na sala.

-O que a Senhora Lora não sabe é que seu marido tornara-se obcecado com a ideia de pagar por causar sofrimento a pessoas que ele considerava completamente insignificantes.  Egoisticamente afetado e procurando uma saída, cortou os laços com tudo que podia vir a magoá-lo, evitando contato com seres humanos, fossem esses contatos físicos ou verbais. Dia após dia, perdendo sua humanidade tornara-se cada vez mais rijo, até virar um simples bloco de pedra. Um telespectador da vida ao seu redor. Nunca ferido, mas também nunca considerado, vivendo num mundo Além da imaginação.

O ser

Eu queria mesmo era ser. Mas o que quero ser não sou, e o que sou ninguém quer ser.

Se eu fosse o que queria ser, seria completo.

Mas o que é não vem a não ser, o que é não se move, se acomoda.

O que não é nunca será, mas por não ser ignora sua falta de sorte e se debate para que um dia seja.

Os que são estão em equilíbrio.

E o equilíbrio é o ferro.

E o ferro não está vivo.

E a morte é estática.

Então que eu não seja para que me mova.

Correndo eternamente na ignorante tentativa de ser.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

O porco

The human Death

Ao longe o uivo solitário de um vira-lata esquecido pelos donos. Em casa apenas silêncio e morbidez. Deitada no sofá ela tomou o último trago de mel. O álcool queimou sua garganta arranhada e o gosto doce revirou suas entranhas. Uma lágrima quente escorreu pelo canto do olho indo aconchegar-se no cabelo emaranhado. Viu o porco e desejou ser o porco. O que se alimenta de seus semelhantes se for necessário para que viva. De carne tenra. De orgasmos infinitos. De muitos filhos redondos e rosados.

"É isso" - Pensou consigo - "Morro eu para que ele viva". Despediu-se de Mistery Beth, que soltava vários iaus da janela, despejando todo o saco de ração pela sala. Olhou-se uma última vez no espelho. Sorriu. Vestiu a máscara.

The Pig Birth

O vento lá fora estava gelado. Sabia-se gelado pois todos vestiam seus casacos pesados de cores neutras. Para o porco, vento era vento e não fazia diferença ao chocar-se contra seu novo couro suíno.
Deu alguns passos e maravilhou-se com seus cascos. Notou também que algumas pessoas riam, outras atravessavam a rua para evitá-lo e alguns cochichavam coisas que, naquele momento, pareciam inteligíveis. Algo como grunhidos.
Um peso na pata direita fez notar que trazia consigo um pé-de-cabra. Tinha fome. Fome de recém nascido. Fome de calor. Fome de vida. Ahhh, há quanto tempo sentia fome de vida! Cheirou o ar e foi invadido por uma gama de diferentes sensações, umas delas muito especial. Vinha de uma mocinha, emanava de seu corpo desenhando no ar ao seu redor rabiscos de luz, como rabo de comenta. Naquele momento soube, teve a percepção plena de que poderia comê-la. Para o bem de outros um porco honrado se sacrificava.
Atravessou por entre os carros que buzinaram em protesto. Dois se chocaram. A mulher olhou para a rua assustada, o porco sorriu, ele já estava perto demais. Cortou o ar com o pé-de-cabra, partiu-lhe a cabeça ao meio, montes de luz quentinha explodiram a sua volta, respingando em seu rosto, o coração acelerou, cada vez mais força, cada golpe mais letal. Agora tudo não passava de uma sopa de ondas eletromagnéticas. Não podia se conter, grunhiu forte como os irmãos fazem no abatedouro e jogou-se em meio à luz. A língua comprida ainda percorria cada orifício quando novas luzes atingiram-lhe a cara bochechuda. Ouviu mais grunhidos e não soube identificar o que significavam. Pôs-se de pé, abriu bem a boca, para que pudessem entendê-lo, levantou o pé-de-cabra e disse:

-Venham!

Foram como estalos. Balas que atingiram seu corpo macio. Sentiu o chão duro chocar-se contra o lombo e percebeu nitidamente o tilintar do pé de cabra ao cair mais adiante. Viu todos os porcos que se aproximavam, olhos esbugalhados, famintos eles também de vida, vida que ele tinha por todo corpo agora. Sentiu-se feliz.

"Um porco honrado sacrifica-se pelos demais!"


Murderous Pig's Death

O assassino trajava um macacão de mecânico e uma máscara de borracha de porco. Atacou a estudante, fulana de tal, de surpresa, deu-lhe de 7 à 10 golpes utilizando um pé-de-cabra. Após a agressão, o meliante chupou os ossos expostos da vítima. Uma testemunha chamou a polícia que chegou ao local em questão de minutos.

O cabo fulano de tal relatou que ao receber o comando para largar a arma e se afastar do corpo o "Porco" levantou-se, ergueu o pé-de-cabra andou em direção da polícia e emitiu um sonoro "Roinc!". Temendo por sua integridade o cabo descarregou a arma contra o lunático que morreu no local.

O GATO



Ele se sentava todas as noites diante daquele maldito computador, olhando aquela pequena barra piscando sobre a página em branco, esperando ser estuprada pelas letras, pela história, por um mundo novo. O copo de café já estava vazio pela centésima vez, o pulmão pedia arrego depois do terceiro maço de cigarros, um dos olhos já não funcionava mais. Ele esperava pela criatividade.
Tinha mil ideias geniais a princípio, mas que com o tempo se tornavam tão enfadonhas, tão desconexas, ele simplesmente não podia terminá-las, não sabia como. Escrever era uma necessidade. Escrever, escrever, escrever. Mesmo se houvesse um início e não houvesse um fim. Talvez fizesse umas ilustrações. Precisava se barbear, pentear o cabelo -caso encontrasse o pente. Era uma vez não era um bom princípio, era?
Apoiava a cabeça entre as mãos, o corpo tremia, o coração batia na cabeça, assim entre os ouvidos. Pense, pense, pense. Mas o cérebro já estava exausto. Mordia a cabeça dos dedos “despelados”. Arrancava tiras e mais tiras do próprio couro. Devia comer alguma coisa..Que tal uma história sobre um assassino glutão? Mas comer era nauseante e mastigar, e mastigar enquanto podia estar revolucionando um mundo.
Ele não suportava toda essa liberdade. Sabe. Começar do zero. E se as pessoas odiassem? Mas por que ele deveria escrever para as pessoas? Por que se importar tanto? Allan Poe se importava? Ele conhecia um Allan, não conhecia? Ou será que ele escreveu sobre esse tal Allan? Outro dia deu de cara com uma mulher no banheiro de casa, conversaram sobre o tempo, mas no final era só outro conto caído no assoalho.
Correu os olhos pelo quarto escuro, sentiu uma presença por ali, ou só a arara segurando algumas roupas, um chapéu de cowboy. Olhou para o chão e viu uma sombra que entrava pela janela, a silhueta de um gato. O bichano o encarava, aquelas duas butucas brilhantes “impiscantes” vidradas em seus dois olhos vermelhos. Sabia que de uma terceira perspectiva eram apenas dois pares de bolas luminescentes num vazio cheirando a câncer. A coisinha peluda lambeu uma pata, olhou para trás uns segundos, virou entediado:

- Vai abrir isso aqui? – Bateu com o rabo no batente da janela. - Que isso!? A voz do gato era mais grossa do que a dele. Coçou a ponta do nariz, será que deixava ele entrar, ele parecia ameaçador. Andou devagar até a janela.

-Peraí. – Pediu ao gato. Abriu o vidrinho, prendeu com o trinquinho, o vento gelado entrou no quarto violentamente, uma placa de fumaça velha saiu pela janela, deu um pequeno aceno. Foi danificar a saúde de outras pessoas.

Aquela bunda peluda andou até o computador, subiu na mesinha, passou os olhos sobre algumas folhas sobre a mesa, deu um riso de deboche, sentou, levantou e re-sentou:

-Vai ficar aí? - Perguntou com aquela voz de chefe de quadrilha. – vou começar a ditar. - Ele correu e se arrumou na cadeira. Colocou os óculos que mais serviam de enfeite. Escreveu cada palavra do gato. Buscou café para os dois. O gato bebeu na xícara, ele bebia no copo. O gato gostava de açúcar, ele não. Às vezes discutiam uma frase que para ele parecia mal colocada. O gato franzia o focinhozinho, lambia o saco, talvez para tirar o gosto ruim de discussão da boca e voltava a falar freneticamente.

Quando já estava cansado de digitar o felino saía pela janela e desaparecia. Foi assim por várias noites. O livro já tinha tantas páginas que ele nem se lembrava sobre o que estava falando. A impressora cuspia florestas e mais florestas, cheias de palavras por todo o quarto. Ele só se levantava para socar mais folhas na cestinha e logo corria e escrevia, escrevia, até que adormeceu.
Abriu os olhos e se viu diante do computador, digitando maquinalmente. Estava realmente acabado, pensou enquanto lambia uma das patas e depois o próprio rabo. Engasgou com o pelo e percebeu que a voz do gato era sua própria voz. Então ele era o gato? Desceu da mesinha e andou pelo quarto. Ouvia melhor, cheirava melhor, era tão mais ágil. Roçou em alguma coisa. Tão bom ser autossuficiente. Até se deparar com a janela. Ainda estava aberta. A luzinha de um poste entrava pelo buraco iluminando tudo à sua volta. Pulou muito fácil, quase nem percebeu e então fez o que sempre quis, saltar pra rua como o gato.
Sentiu o gosto de sangue na boca, o asfalto gelado sob o corpo moído, sua última visão foi um ponto preto na janela rindo adoidado, enquanto soltava algumas folhas pela noite gelada. Uma delas caiu bem sobre seu rosto. O seu livro amado. Milhares de vezes repetida a frase "Eu sou o gato".

Toccata e Fuga

- Vovô, falo sério! O senhor deveria tomar jeito.Vê, nem amigos possui. Sai todo os dias solitário, volta solitário. O que será de sua vida quando ausentar-me?

- Serei feliz! - O velho respondeu, cobrindo a cabeça com o velho chapéu preto, armando-se de sua bengala mais que arranhada. - Não me espere para o jantar.-Saiu batendo a porta às costas.

Já a rua respirou um bom bocado do ar gelado do inverno que tanto apreciava. Viu o porteiro saudando-lhe, mas deu de ombros e foi embora. Caminhando a passos lentos,não o queria, mas pôs-se a pensar nas palavras da neta. Considerava-a uma louca libertina, mas talvez estivesse certa. Havia muito ele se ausentara, conscientemente, dos círculos sociais. Achava-se completamente inadequado. Suas amizades duravam somente até o primeiro desentendimento. Não podia suportar as opiniões ignorantes da massa aberralítica. Quanto a mulheres, bem, uma parte sempre se desinteressava. Cultivara vários amores simultâneos , até ler em algum canto que a "Renúncia era liberdade". Foi o suficiente. Isolou-se em sua bolha maestral ao som de Toccata e fuga.

Rumava em direção ao costumeiro Café oliviatis quando percebeu-se vagando num passado muito distante, ainda moço, ouvindo dos lábios da mãe, bondosa senhora, o veredicto de sua vida." Morrerás sozinho num apartamento fedido!". Velha danada. Acertara na mosca. Sentiu necessidade de contrariá-la. Talvez pudesse ser mais amável. Não precisava falar, apenas sorrir. Isso ele ainda sabia fazer,não é?! - Sentou-se à mesa costumeira no canto do café e deu um leve sorriso à garçonete que sempre lhe atendia e pareceu um tanto quanto surpreendida pela repentina simpatia do velho turrão, a quem a staff apelidara carinhosamente de Capitão Ahab (Mob Dicky).

- O de sempre? - Ela Indagou por obrigação. Ele nunca bebera nada que não fosse café sem açúcar. Açúcar é doce, amor é doce, tais analogias o faziam doente.

Era isso. Seria um novo homem. Amável. Bondoso. Amado. Não morreria só. - O café chegou. Ainda com um sorriso ele sorveu uma golada. Levantou-se de um salto, cuspindo e...

- P... merda! É isso que chamam de café?? Já bebi água de poço mais encorpada! - Pegou o chapéu e a bengala, atirou as moedas do pagamento por cima do ombro e saiu sem olhar para trás.

Já à porta pensou consigo:

-É! Não depende de quem quer ou de quem corre...

(Sem título)

PARTE I

Não que esteja bom. Só não faz qualquer sentido. Não vou fazer a barba hoje nem amanhã. Não é estética, nem vaidade, nem metrossexualidade histérica, só não acordei pendendo para a higiene pessoal escultural dos meus pelos faciais. Talvez eu passe essa lâmina e desenhe um coração nessa bochecha, ou uma águia, não, não, detalhado demais, talvez só faça uma reta, uma reta limpa de pelos, os pelos que são obstáculos, talvez dê uma metáfora, uma metadentro, ou só fique ridículo.
Quem iria notar? As pessoas, mesmo os velhos tiozinhos e as velhas peruinhas, descoladas espiritualmente, para frentex, como diriam, não notam coisas bisonhas, ou fingem não notar. Elas devem olhar de soslaio, aquele olhar em que a bola preta dos globos oculares some de tanto esforço lateral.
Dizer a uma pessoa “Ei, a sua barba faz a sua cara parecer a bunda de um macaco!” não é aceitável. Não porque o cara não pareça realmente os glúteos primatais e sim porque julgar singularidades não está na moda. Liberdade é o que há!
Se por acaso aparecesse um pobre diabo que graças às traquinagens da natureza, nasceu defecado e cuspido a cara daquele fundador do Nazismo, o homem com nome que não se pode pronunciar, e dissesse as massas, enquanto cuspia bolo de chocolate sobre a multidão apaixonada: Queimem os porcos. Eles querem dominar o mundo. O rabo bifurcado nada mais é do que um aparelho radiofônico anal que transmite os sons emitidos em seu hábitat natural – Talvez a lama gosmando, ou a patroa porca dizendo: “Querido, Fred, Francisco, Frederico, Fredembaldo, Fredembuldo, Frorinda, Francesa e Frenesi sumiram!” ao que o querido responde em código: “Não querida, eles foram apenas empalados, assados e decorados com maçãs vermelhas fritas!”, na verdade querendo dizer: “Agente 69, os recrutas foram enviados de volta a Porcolândia, devidamente munidos de suas maçãs teletransportadoras!” O gancho dos abatedouros prateados cintilando no escuro, se esbarrando e tilintando à espera de toda aquela carne gordinha. Quando a conquista de um mundo não exigiu algumas baixas? – E informa o interespaço de nossas ações. Com certeza 999 pessoas, reparem que novecentos e noventa e nove invertido é o mesmo número da besta, acreditariam fervorosamente no deficiente mental com bigode de rabo de boi.
Sim, estou sendo teatral. Sim, estou sendo banal. Que artista não é? Que sentido há em ter palavras se não podemos jogar com elas? Por que eu deveria usar as mesmas expressões todos os dias, e ser igual todos os dias, e não exagerar todos os dias? Que paixão há em não ter paixão? Eu me apaixono todos os dias. Apaixono-me por mim, e por eu mesmo, e por aquele rapaz simpático no espelho. Sinto dó dele, tão odiado, inesperado e subjugado.
Eu enceno para as pessoas. Eu perco minha identidade. Sou narcisista, modista, extremista e anarquista. Sou ciumento, depressivo, torcedor, filósofo, amigo e impessoal.
Às vezes eu me pergunto se só eu tenho um eu para cada ocasião ou se todas as pessoas têm uma gama de eus como sapatos no armário. Se todos possuem essa pluralidade de personalidades, não uma mudança agressiva que transforma o lobo mau em chapeuzinho vermelho, porém, uma leve diferença no olhar, no pensar e se comportar, se for desse jeito ninguém jamais será conhecido por inteiro e para uma única pessoa existiria um grande número de vidas que coexistiriam paralelamente. Entretanto, parece impossível que uma pessoa portadora das mais diversas limitações seja capaz de manter separadas, como em arquivos velhos, cada uma dessas formas de existência. Deve ser esse o motivo pelo qual as pessoas não me amam. Imagine você começar a conversar com Edgar Allan Poe e terminar o diálogo diante de Sir. Arthur Conan Doyle. Perturbador.
Hoje pode não fazer sentido. Você lê isso e diz: “É um maluco!” Mas eu digo que releio e afirmo “É isso!” O ardor incalculado da ideia exagerada. Chama-se hipérbole no português? Ou seria hipérbole apenas uma curva no R3? Eu não sei agora. Não sei de nada agora. Só sei que está tudo rodando e torto, o vento me enverga e diagonaliza, e eu nem bebi porque gosto, mas sim porque eu queria impressionar os bebedores, horrorizar os sóbrios e castigar o idiota que amanhã pela manhã vai comer pão com gosto de areia.

PARTE II

Não se diz a um filho: Não beba! É muito geral, muito conflitante, eu diria, angustiante, tipo aquelas questões traidoras com aproximadamente 999 respostas - repare novamente no 666 - que faz um sujeito decidido pifar. O que é para deixar de ser bebido? Deus no Éden não disse: Bebei de toda água, menos daquela fonte de 88, Caninha brava. Quer dizer, naquele lugar Ele não vetou o álcool. O café pode ser muito prejudicial à saúde. Ouvir dizer uma vez que um sujeito tomou muito café em frente ao computador, ele estava jogando certo?! Uma partida daquelas que você não pode parar nem se estiver se cagando, e então depois de uma semana plugado, ele morreu. Tá certo que ele ter passado sete dias olhando todas aquelas cores epiléticas, sem descanso, sem comida saudável, à base de pixels e softwares deve ter feito muito mal, mas eu mudo de nome se o maldito do café não tiver um dedo nisso. Não confie em uma coisa que não te permite ver o fundo de sua própria caneca.
O que eu quero dizer, se é que alguém quer saber, é que se você aconselha uma pessoa a não fazer certa coisa tem de informá-la também o porquê de tê-lo feito.
É assim, como as mães de antigamente faziam. Elas falavam: Me obedeça ou o velho do saco te leva embora! Ninguém quer viver no saco de um velho. É deprimente!
Então, tem um motivo. Não quer ser levado pelo velho do saco? Obedeça! Depois disso os pobres infantes tomavam conta de todo e qualquer idoso com um saco nas costas. O fato de que, se o velho levasse mesmo as crianças ele não conseguiria sequer levantar o saco,  não tem nada haver com a gravidade da situação. Contudo, as crianças ainda desobedecem. Não que não tenham medo do sequestrador ancião, mas necessitam saber a graça de desobedecer. Logo, o que as mães deviam dizer? Se você me desobedecer fará o que quer, isso vai te deixar feliz, porém o velho do saco te levará.
Como com a bebida. Te avisam: Não beba! Não comunicam: Se beber você vai se desinibir e controlar o mundo com as mãos. Levar 30 minutos para cobrir um espaço de 2 metros, pois os bêbados se esquecem da linha reta e lembram que a trajetória não altera o resultado. Ser popular enquanto houver etanol na sua corrente sanguínea, tombar e dormir. Beberá cada vez mais procurando essa espécie de carisma engarrafado, tirará dinheiro do próprio bolso para dar a família Walker e morrerá a míngua, marginalizado, cheirando a mijo a.C. Só mesmo os russos insistiriam depois dessa previsão barra admoestação.
Eu sei, parece lição de moral. Não é. Só estou tentando me convencer dos meus próprios pontos de vista enquanto debruçado sobre a porcelana sanitária barra vomitôdromo oficial.
A situação toda é no mínimo bisonha. Fui a uma festa. As pessoas deveriam se divertir em festas, comer, conversar, socializar. Bebi para descontrair. Dancei. Bebi para acompanhar alguém. Conheci umas pessoas. Bebi para me exibir. Beijei alguém. Jéssica, Teobaldo, não sei bem, não consigo lembrar. Bebi por beber. Bebi para cair. Caí.
Ou eu bati com a cabeça muito forte no chão e danifiquei meu córtex cerebral, ou a bebida me deu amnésia. Acordei no quintal de casa umas nove ou nove e meia da manhã e agora estou aqui, diante do bocão esperando que o próximo volume que saia pela minha boca não seja meu estômago, e imaginando como cheguei ao lar, doce lar.
Será que Deus está no céu sentado em seu trono reclinável, enquanto come batata frita industrializada sem gordura trans- realmente sem gordura – me olhando e comentando com #@$!ael, anjo das batatas de saquinho, o quanto eu sou um merda? Ele diz:
- Tá vendo?! Eu faço esse idiota, coloco no topo do mundo, apenas inferior ao capim, dou um cérebro, a capacidade de distinguir irmãs, tias e mães de reprodutoras e possíveis parceiras sexuais e ele me retribui enchendo a cara!
Decepcionar Deus é uma audácia muito homo sapiens. É tipo como, imaginem, se os computadores se virassem contra nós. A gente diz a eles, usem o Blue Ray disc e eles enfiam disquetes goela abaixo. Quer dizer, o Cara permite que uma pessoa qualquer invente o refrigerante, “Celulites são melhores do que transplante de fígado” Ele diz, e mesmo assim as pessoas preferem ser retalhadas, isso quando há um fígado para que possa haver o corte e quem sabe metade de uma vida nova para estragar o fígado novo. Afinal de contas, é de outra pessoa mesmo. Tsc tsc.

Primeira postagem outra vez.

Passei algum tempo me perguntando o que ganharia voltando a escrever. Não posso garantir que alguém esteja o mínimo que seja interessado no que tenho a dizer. Não posso garantir ter algo a dizer. Mas tenho certeza que papel e lápis custam menos do que Rivotril e terapia.

Portanto, escreva apenas por escrever!