quarta-feira, 5 de abril de 2023

O lugar onde as ondas morrem

Tragédia. A tragédia tem seu apelo, não podemos negar. Como uma proteína, ela se associa a alguma parte primitiva no homem e secreta um hormônio sedutor, quase hipnótico. O sinal é transduzido e, em pouco tempo, todas as células, adjacentes ou distantes, movem-se em direção ao sofrimento.  

Cansamos muito rapidamente dos relatos de felicidade, até nos ressentimos deles em certa medida, mas para a tragédia sempre há espaço, ouvido e atenção. 


Somos assim há muitos anos. Das feirinhas em dias de execução nas praças públicas aos jornais que jorram sangue na hora do jantar em família. Os "homens maus realmente fazem o que os homens bons sonham." 

Algumas pessoas se perguntam o motivo de nosso comportamento irracional, criam várias teorias estapafúrdias e são capazes, inclusive, de se inocentarem dessa culpa, dizendo em alto e bom som que não compactuam desse mal endemico. 

Alheias, é claro, a própria maldade, sufocam nas profundezas do subconsciente um grande dragão. 
Na verdade, a literatura antiga, a neurociência e a psicanálise já tem metade, senão todo esse quebra-cabeças montado. Todos temos traços de psicopatia, o que nos impede de sair por aí cortando as cabeças de nossas mães, é a empatia  - e às vezes nem é empatia pela mãe, mas sim por nós mesmos. Todos somos compostos de átomos, moléculas, tecidos, organismos, sistemas e aquela maldade instrínseca ao IDE que o alterego arrancou à base da chinelada e do castigo de joelho no milho. 

Quantas pessoas você matou ao longo da sua vida? Não digo com as suas próprias mãos, mas em sua cabeça. Quantas você chicoteou, quantas você quis ver tropeçando e caindo? Quantas vezes, quando os seus pais o colocavam de castigo, você pensava em vingança? Amamos a tragédia porque somos nós também tragédia.

Não vejo defeito nisso. Eu concordo com aquela máxima Petersoneana: só quem é um monstro e controla esses aspectos voluntariamente pode ser realmente bom. Animais indefesos são perigosos, homens indefesos são homicidas. 

E como se dão as tragédias nesse mundo? Quando começaram e por onde adentraram na aparente ordem na qual nos organizamos, primeiro como células, depois como comunidades?

Alguns dirão que tudo começou em um jardim num dia ensolarado, quando a rebelião deu à luz a lógica e a morte.  Outros dirão que foi em uma grande explosão que trouxe a ordem temporária as coisas ao preço de embutir em seu DNA a sua degradação inevitável.

Porque morremos há tragédia e não existe grande tragédia sem ao menos uma morte. 

É um discurso duro, eu sei, ou apenas dramático, mas me pareceu a introdução correta ao meu infortúnio pessoal. Enquanto muitos dirão que a tragédia é uma evento aleatório e outros ainda dirão que é o resultado dos nossos maus atos, eu digo que a tragédia é resultado da minha felicidade. É isso mesmo. Se eu fico feliz, alguma tragédia acontece. 

Primeiro pensei haver mera correlação entre essas variáveis, depois confirmei a causalidade dos eventos. Se eu sorrisse tão logo tropeçava, se eu tivesse um bom dia hoje, no seguinte amanheceria doente. 
A todas as entradas felizes do meu diário seguem-se pequenos incidentes, medianas misérias e grandes tristezas. 

Não demorou muito para que eu começasse a ser consumido por um terrível medo da felicidade. Após cada sorriso eu sempre esperava, no mínimo, ser cagado por um pombo bem no meio do olho ou ainda ser atingido por um raio. 

Vociferei incontáveis vezes contra o céu e a estatística por minha pífia existência. Me senti o mais miserável entre os homens; quão desafortunado esse amontoado de átomos com infinitas possibilidades se tornou. Feynman, você estava errado! 


O pavor da tragédia iminente me tornou um "pobre melancólico que acha que a felicidade é muito barulhenta e cheia de gente". Fugi dos sorrisos, dos amores e dos conflitos que poderiam resolver problemas e trazer serenidade a vida como o diabo foge dos gritos do Silas Malafaia.  Nenhum segundo de prazer compensa a dor aleatória que, inevitavelmente, o segue. 

 
Isolei-me, por fim, num apartamento confortável no centro da cidade. Daqui ouço a gargalhada dos ébrios, a volúpia das vozes femininas, o gemido das cuícas e os tilintar das taças de cerveja. É aqui onde ondas sonoras vêm morrer. Também é aqui que choro incontáveis lágrimas amargas após horas assistindo vídeos de cantores ruins em programas de calouros. É daqui que não posso sair para que meu futuro não seja como o meu passado. É aqui que todos os dias eu morro um pouco. É aqui que existe paz.

Quarta-feira

 Sou dramática e desequilibrada. É isso. Tenho que aceitar a minha dramaticidade e desequilíbrio. 

E tem mais, sou também emocionada. Choro quando os amantes me deixam. Choro quando me esquecem. Choro quando aparecem engalfinhados em outros amores.

Abomino o frio e o taciturno e as mensagens antiinflamatórias - de 8 em 8 horas. 

Não ousaria dizê-lo em voz alta, mas quero dengo, chamego e cafuné. Não confesso porque para essa geração não existe crime maior do que o apego. Tenho medo de terminar de trás de grades, vestindo um tenebroso macacão laranja, condenada a dançar o thriller para o YouTube. 

Gosto também de uma boa briga - porque sou desequilibrada. E exijo dos meus amores que briguem de volta. Que pelejem comigo esse bom combate. Só para viver as delícias das pazes mais tarde. Só para viver em paz pós conflito. 

Como De Gaulle, eleito após a guerra dos paralelepípedos. 

Sou dramática e desequilibrada e, por muito tempo, tive vergonha de sê-lo. Era como quem tem 3 mamilos e mantém o extra escondido com medo de ser vendido ao circo para o riso do público. 

Mas que público é esse, eu pergunto? Que público é esse cujo julgamento pode sepultar um ser vivo?

O público do ansiolítico, dos vícios, da solidão, dos ataques de pânico, do amor incondicional dos cachorros, da falta de habilidades sociais, do ódio ao gênero oposto, do golpe no amor, do golpe sem amor, do vazio existencial, da falta de identidade, da dor sem palavras. 

E diante da inadequação do próprio público, como Nelson Rodrigues abraçando a velhice ante a vergonha da nudez sem amor, dispo-me de vergonha, corro e agarro pelos ombros os sentimentos que carrego, abraço apertado, peço desculpas por tê-los rejeitado e os levo ao cinema.


Quarta feira o ingresso é mais barato.