sexta-feira, 12 de julho de 2013

Toccata e Fuga

- Vovô, falo sério! O senhor deveria tomar jeito.Vê, nem amigos possui. Sai todo os dias solitário, volta solitário. O que será de sua vida quando ausentar-me?

- Serei feliz! - O velho respondeu, cobrindo a cabeça com o velho chapéu preto, armando-se de sua bengala mais que arranhada. - Não me espere para o jantar.-Saiu batendo a porta às costas.

Já a rua respirou um bom bocado do ar gelado do inverno que tanto apreciava. Viu o porteiro saudando-lhe, mas deu de ombros e foi embora. Caminhando a passos lentos,não o queria, mas pôs-se a pensar nas palavras da neta. Considerava-a uma louca libertina, mas talvez estivesse certa. Havia muito ele se ausentara, conscientemente, dos círculos sociais. Achava-se completamente inadequado. Suas amizades duravam somente até o primeiro desentendimento. Não podia suportar as opiniões ignorantes da massa aberralítica. Quanto a mulheres, bem, uma parte sempre se desinteressava. Cultivara vários amores simultâneos , até ler em algum canto que a "Renúncia era liberdade". Foi o suficiente. Isolou-se em sua bolha maestral ao som de Toccata e fuga.

Rumava em direção ao costumeiro Café oliviatis quando percebeu-se vagando num passado muito distante, ainda moço, ouvindo dos lábios da mãe, bondosa senhora, o veredicto de sua vida." Morrerás sozinho num apartamento fedido!". Velha danada. Acertara na mosca. Sentiu necessidade de contrariá-la. Talvez pudesse ser mais amável. Não precisava falar, apenas sorrir. Isso ele ainda sabia fazer,não é?! - Sentou-se à mesa costumeira no canto do café e deu um leve sorriso à garçonete que sempre lhe atendia e pareceu um tanto quanto surpreendida pela repentina simpatia do velho turrão, a quem a staff apelidara carinhosamente de Capitão Ahab (Mob Dicky).

- O de sempre? - Ela Indagou por obrigação. Ele nunca bebera nada que não fosse café sem açúcar. Açúcar é doce, amor é doce, tais analogias o faziam doente.

Era isso. Seria um novo homem. Amável. Bondoso. Amado. Não morreria só. - O café chegou. Ainda com um sorriso ele sorveu uma golada. Levantou-se de um salto, cuspindo e...

- P... merda! É isso que chamam de café?? Já bebi água de poço mais encorpada! - Pegou o chapéu e a bengala, atirou as moedas do pagamento por cima do ombro e saiu sem olhar para trás.

Já à porta pensou consigo:

-É! Não depende de quem quer ou de quem corre...

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