Olhei pelo vidro do carro.
O sinal aberto e tudo indo tão rápido.
Mas ela estava ali, serena, talvez não por opção, apenas obrigação da idade.
Velhos andam devagar porque já tiveram toda a pressa de que necessitavam.
Aquele rostinho murcho.
Olhos cansados.
Eternamente trêmula.
O que se passava naquela cabeça de cabelos branquinhos.
Será que ela se lembrou do tempo em que atravessar a rua era corriqueiro?
Das muitas vezes em que se arremessou por entre carros sem hesitar?
Ou até mesmo que naquela época não existiam tantos carros?
Um ato antes tão simples se tornara um desafio.
Precisar de tanta ajuda para dar poucos passos.
Se alguém não lhe apoiar talvez nunca alcance o outro lado.
Entretanto, a boa vontade foi sepultada sob o asfalto.
Então talvez se sinta desolada demais.
E é sempre assim quando atravessa aquela rua pela manhã.
E toda vez que se levanta e lembra da rua por atravessar.
E toda noite quando vai se deitar e sabe que pela manhã haverá uma rua e a velha desolação.
A rua é a lembrança de que a morte é o futuro.
Chegar ao outro lado é transpor a última dificuldade.
Passar por horas difíceis, minutos, segundos até, é a garantia de ainda estar vivo.
Tudo para.
É hora de se apressar .
Enquanto puder atravessar,a vida está garantida.
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