sexta-feira, 12 de julho de 2013

O GATO



Ele se sentava todas as noites diante daquele maldito computador, olhando aquela pequena barra piscando sobre a página em branco, esperando ser estuprada pelas letras, pela história, por um mundo novo. O copo de café já estava vazio pela centésima vez, o pulmão pedia arrego depois do terceiro maço de cigarros, um dos olhos já não funcionava mais. Ele esperava pela criatividade.
Tinha mil ideias geniais a princípio, mas que com o tempo se tornavam tão enfadonhas, tão desconexas, ele simplesmente não podia terminá-las, não sabia como. Escrever era uma necessidade. Escrever, escrever, escrever. Mesmo se houvesse um início e não houvesse um fim. Talvez fizesse umas ilustrações. Precisava se barbear, pentear o cabelo -caso encontrasse o pente. Era uma vez não era um bom princípio, era?
Apoiava a cabeça entre as mãos, o corpo tremia, o coração batia na cabeça, assim entre os ouvidos. Pense, pense, pense. Mas o cérebro já estava exausto. Mordia a cabeça dos dedos “despelados”. Arrancava tiras e mais tiras do próprio couro. Devia comer alguma coisa..Que tal uma história sobre um assassino glutão? Mas comer era nauseante e mastigar, e mastigar enquanto podia estar revolucionando um mundo.
Ele não suportava toda essa liberdade. Sabe. Começar do zero. E se as pessoas odiassem? Mas por que ele deveria escrever para as pessoas? Por que se importar tanto? Allan Poe se importava? Ele conhecia um Allan, não conhecia? Ou será que ele escreveu sobre esse tal Allan? Outro dia deu de cara com uma mulher no banheiro de casa, conversaram sobre o tempo, mas no final era só outro conto caído no assoalho.
Correu os olhos pelo quarto escuro, sentiu uma presença por ali, ou só a arara segurando algumas roupas, um chapéu de cowboy. Olhou para o chão e viu uma sombra que entrava pela janela, a silhueta de um gato. O bichano o encarava, aquelas duas butucas brilhantes “impiscantes” vidradas em seus dois olhos vermelhos. Sabia que de uma terceira perspectiva eram apenas dois pares de bolas luminescentes num vazio cheirando a câncer. A coisinha peluda lambeu uma pata, olhou para trás uns segundos, virou entediado:

- Vai abrir isso aqui? – Bateu com o rabo no batente da janela. - Que isso!? A voz do gato era mais grossa do que a dele. Coçou a ponta do nariz, será que deixava ele entrar, ele parecia ameaçador. Andou devagar até a janela.

-Peraí. – Pediu ao gato. Abriu o vidrinho, prendeu com o trinquinho, o vento gelado entrou no quarto violentamente, uma placa de fumaça velha saiu pela janela, deu um pequeno aceno. Foi danificar a saúde de outras pessoas.

Aquela bunda peluda andou até o computador, subiu na mesinha, passou os olhos sobre algumas folhas sobre a mesa, deu um riso de deboche, sentou, levantou e re-sentou:

-Vai ficar aí? - Perguntou com aquela voz de chefe de quadrilha. – vou começar a ditar. - Ele correu e se arrumou na cadeira. Colocou os óculos que mais serviam de enfeite. Escreveu cada palavra do gato. Buscou café para os dois. O gato bebeu na xícara, ele bebia no copo. O gato gostava de açúcar, ele não. Às vezes discutiam uma frase que para ele parecia mal colocada. O gato franzia o focinhozinho, lambia o saco, talvez para tirar o gosto ruim de discussão da boca e voltava a falar freneticamente.

Quando já estava cansado de digitar o felino saía pela janela e desaparecia. Foi assim por várias noites. O livro já tinha tantas páginas que ele nem se lembrava sobre o que estava falando. A impressora cuspia florestas e mais florestas, cheias de palavras por todo o quarto. Ele só se levantava para socar mais folhas na cestinha e logo corria e escrevia, escrevia, até que adormeceu.
Abriu os olhos e se viu diante do computador, digitando maquinalmente. Estava realmente acabado, pensou enquanto lambia uma das patas e depois o próprio rabo. Engasgou com o pelo e percebeu que a voz do gato era sua própria voz. Então ele era o gato? Desceu da mesinha e andou pelo quarto. Ouvia melhor, cheirava melhor, era tão mais ágil. Roçou em alguma coisa. Tão bom ser autossuficiente. Até se deparar com a janela. Ainda estava aberta. A luzinha de um poste entrava pelo buraco iluminando tudo à sua volta. Pulou muito fácil, quase nem percebeu e então fez o que sempre quis, saltar pra rua como o gato.
Sentiu o gosto de sangue na boca, o asfalto gelado sob o corpo moído, sua última visão foi um ponto preto na janela rindo adoidado, enquanto soltava algumas folhas pela noite gelada. Uma delas caiu bem sobre seu rosto. O seu livro amado. Milhares de vezes repetida a frase "Eu sou o gato".

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