-Há muito meu marido não andava em seu juízo normal. No começo, brigava por qualquer motivo, sempre irritadiço. Depois passou a manter-se calado por longos períodos de tempo, sempre com um olhar amargo. Mexia nos livros e papéis sem nunca ler ou escrever uma nota. Resmungava baixinho pelos cantos alguma coisa sobre falar menos para manter-se a salvo. Dos sermões de domingo trazia para casa papeizinhos diversos com frases sobre pagar pelos erros cometidos na mesma intensidade que os cometera. Com o tempo, passou a trancar-se num dos quartos, aquele com uma estante grande. Passávamos a comida por uma fresta aberta rusticamente ao pé da porta. Diversas vezes protestei não poder falar com ele sem que ao menos me olhasse nos olhos. Daí permitiu que um homem entrasse e colocasse um olho mágico. Assim, dizia ele, eu teria certeza de que estaria sendo ouvida com atenção.
Implorei que me contasse o motivo de tamanho pavor da vida, mas só pôde me dizer que se convivesse com as pessoas não poderia evitar feri-las e isso lhe traria sofrimento em dobro. Certa manhã fui acordada por Iaiá. O jantar continuava à porta, negro, tantas eram as formigas. Ora, aquilo me deixou muito irritada. Entrei no aposento sem ao menos bater e para a minha surpresa, lá estava ele, duro como pedra. Virou estátua.
O doutor diz não haver pulso ou atividade cerebral. Já eu, sempre quis uma escultura na sala. – Olhou para o marido petrificado em pé próximo a porta, braços abertos e deu um sorrisinho de satisfação –Também o usamos como cabideiro.
A cena para. O locutor entra andando na sala.
-O que a Senhora Lora não sabe é que seu marido tornara-se obcecado com a ideia de pagar por causar sofrimento a pessoas que ele considerava completamente insignificantes. Egoisticamente afetado e procurando uma saída, cortou os laços com tudo que podia vir a magoá-lo, evitando contato com seres humanos, fossem esses contatos físicos ou verbais. Dia após dia, perdendo sua humanidade tornara-se cada vez mais rijo, até virar um simples bloco de pedra. Um telespectador da vida ao seu redor. Nunca ferido, mas também nunca considerado, vivendo num mundo Além da imaginação.
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